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Uma perspectiva cristã sobre a Covid-19

Tearfund Aprendizagem: Uma perspectiva cristã sobre a Covid-19

Por Dra. Ruth Valerio e Gideon Heugh

Enfrentamos uma crise global sem precedentes e, por sermos seguidores de Jesus, fazemos os seguintes questionamentos: por que essa crise está acontecendo? Como devemos responder? Onde Deus está nessa situação? Em épocas como essa, quando a nossa vida vira de cabeça para baixo, é essencial que adotemos uma boa teologia, baseada na Bíblia. Teologia é o nosso entendimento da natureza de Deus. Por sua vez, esse entendimento influencia a maneira como enxergamos o mundo e respondemos a ele.

A maioria das igrejas ao redor do mundo parou de ter reuniões presenciais, por razões óbvias, sensatas e necessárias. Algumas, no entanto, não pararam de se reunir, fazendo referência à crença de que Deus as protegerá do vírus. Essa é uma teologia ruim e que pode custar vidas. Claro que Deus protege e cura. No entanto, somos suas mãos e pés e, portanto, é essencial que desempenhemos o nosso papel, ouvindo as orientações dos especialistas e tomando as providências devidas. Confio que Deus protegerá a minha saúde, mas também procuro me exercitar e consumir alimentos saudáveis. Se eu quebrasse a perna, oraria para que Deus a curasse, mas também iria ao médico. Portanto, devemos confiar em Deus e tomar as providências necessárias.

RELACIONAMENTOS ROMPIDOS

A teoria da pobreza adotada pela Tearfund está fundamentada na nossa compreensão dos relacionamentos. Deus criou um mundo que ele declarou ser muito bom: um mundo em que as pessoas e a ordem natural mais ampla existem harmoniosamente na presença de Deus. O relacionamento que temos com Deus, com as outras pessoas, conosco mesmos e com o resto da criação é central para os propósitos de Deus, que são repletos de amor. Quando esses relacionamentos dão errado, a Bíblia conta a história de como Deus age para restaurá-los e fazer com que voltem ao normal — um plano que acaba sendo cumprido em Jesus Cristo.

A pobreza é o resultado desses relacionamentos rompidos: é a consequência dos legados sociais e estruturais dos relacionamentos rompidos com Deus, uma falta de compreensão do que significa sermos criados à imagem de Deus, relacionamentos injustos entre as pessoas e relacionamentos abusivos com o meio ambiente. É a realidade e a consequência do pecado ao nos afetar individualmente, mas também estrutural e sistemicamente. A Bíblia deixa claro que Deus, as pessoas e o mundo natural como um todo estão profundamente interconectados; portanto, se um aspecto se romper, os demais também serão impactados.

Por mais difícil que seja ouvir, a pandemia da Covid-19 não é um “desastre natural”. Pelo contrário, é um desastre criado por nós mesmos. Os vírus passam de uma espécie para outra e infectam os seres humanos. A destruição ambiental aumenta a probabilidade de isso acontecer, com maior frequência, à medida que as pessoas passam a ter um contato mais próximo com animais portadores de vírus. Desmatamento, mineração, comércio de carne de animais silvestres, tráfico de animais e práticas agrícolas não sustentáveis são possíveis fatores causadores. O desespero causado pela pobreza e a ganância que caracteriza a riqueza sustentam um sistema global que está fundamentalmente em desacordo com a intenção original de Deus de que haja shalom entre todas as coisas.

Admitir essa realidade não é a mesma coisa que dizer que Deus a causou ou desejou, ou que resulta do julgamento de Deus. Pelo contrário, isso significa admitir que o estado atual da criação e o pecado sistêmico e individual são fatores contribuintes para o surgimento e a disseminação de coisas que prejudicam a todos nós. Deus criou um mundo onde todas as coisas estão interconectadas e onde há consequências naturais quando essas conexões são rompidas.

DOENÇAS E PECADOS

Em algumas culturas, as doenças são vistas como sendo algo diretamente relacionado aos pecados da pessoa em questão (podendo, inclusive, ser pecados cometidos em uma vida passada para aqueles que acreditam em reencarnação e karma). Porém, a Bíblia não permite que uma linha tão simples de causa e efeito seja traçada entre pecado e doença. Por exemplo, na história de Jó, fica claro que o seu sofrimento não resultou do seu pecado, mas da existência e da atuação de Satanás. Em Lucas 13:1–5, Jesus é informado sobre o massacre ordenado por Pilatos de alguns galileus que estavam oferecendo sacrifícios: ele responde apontando que aqueles que foram mortos não eram mais pecadores do que aqueles que sobreviveram. Ele diz o mesmo em relação às 18 pessoas que foram mortas quando a torre de Siloé desabou.

Ao fazer isso, ele deixa claro que a existência de calamidades não significa que aquelas vítimas são pessoas piores do que qualquer outra. Tais eventos não devem ser usados como oportunidades para julgar os outros. O que Jesus faz é atacar o julgamento feito pelos que observam o desastre, passando a salientar que todos os seres humanos enfrentarão um julgamento divino desastroso se não se arrependerem.

Em João 9:1–5, lemos que Jesus passou por perto de um homem cego de nascença. Os discípulos indagaram sobre os pecados que haviam causado tal cegueira — foi o pecado dele ou o de seus pais? Jesus deixa claro que a cegueira daquele homem não está relacionada ao pecado. Pelo contrário, a condição daquele homem oferece uma oportunidade “para que a obra de Deus se manifeste na vida dele” (vs. 3). Em Marcos 2, Jesus cura um paralítico, cuja maca em que estava deitado foi baixada através de uma abertura no teto, dizendo: “Seus pecados estão perdoados”. Ao lermos o que Jesus disse acima, devemos ter o cuidado de não associar a paralisia daquele homem aos pecados cometidos por ele. Jesus não disse isso explicitamente, e pode ser que Jesus soubesse que a maior necessidade que o homem tinha era o perdão de seus pecados, e não a cura física. Vale a pena salientar que em nenhum outro lugar Jesus cura alguém dizendo “seus pecados estão perdoados”.

Isso não quer dizer que não haja vínculos entre cura espiritual e física. Como vimos acima, a Bíblia traz exemplos da ligação entre o pecado e o sofrimento no mundo: nosso sofrimento físico faz parte de toda a cadeia de pecados observada a partir de Gênesis 3. Podemos fazer escolhas de estilo de vida que promovam ou negligenciem a nossa saúde e o nosso bem-estar. A Bíblia indica que pode haver casos em que a doença de uma pessoa seja o resultado do pecado pessoal, no entanto, se e quando as pessoas adoecem, não há fundamentação bíblica para automaticamente vincular isso ao pecado de uma pessoa e, por isso, nunca devemos usar esse argumento para justificar a estigmatização e a rejeição. Os fariseus fizeram isso, mas Jesus não. Sua mensagem foi de aceitação, inclusão e compaixão por todos.

SINAIS DO FIM DOS TEMPOS?

Conflito generalizado no Oriente Médio. Uma praga de gafanhotos que se alastra pela África. Inundações ao redor do mundo. Alguma dúvida de que esses são sinais do fim dos tempos? Se há algo que podemos dizer com certeza é que ninguém pode ter certeza de tudo o que sabe. Se o próprio Jesus não sabia quando seria o fim dos tempos (Mateus 24:36), quem somos nós para tentar adivinhar?

É importante manter uma perspectiva mais ampla em relação a tudo isso. Os cristãos têm tentado (e fracassado) prever o fim do mundo desde que a igreja foi formada. Embora a palavra “sem precedentes” continue sendo usada, essa não é a primeira crise com estas proporções. Na verdade, houve épocas muito mais sombrias na história da humanidade. Estima-se que a Grande Praga do século 14 tenha destruído quase dois terços da população da Europa. Tenho certeza de que as pessoas daquela época também se convenceram de que estavam no fim dos tempos.

Guerras, doenças e desastres naturais — infelizmente, nada disso é novidade. Jesus disse que a sua volta seria repentina e inesperada e que deveríamos ignorar qualquer um que afirme que sabe datas e horários específicos (Mateus 24:3–31). A resposta é que não há resposta e, por isso, devemos ignorar aqueles que acham que a sabem.

PORTANTO, COMO DEVEMOS RESPONDER?

A igreja deve ser a luz do mundo (Mateus 5:14). Enquanto a sombra do coronavírus cai sobre a terra, o chamado da igreja é brilhar o máximo possível.

Cremos que o sofrimento e as doenças não são o que Deus desejou para a sua criação. A missão de Deus é redimir e restaurar toda a criação, e a igreja, como corpo de Cristo, tem um papel essencial e distinto a desempenhar no cumprimento dessa missão. Devemos seguir a Jesus demonstrando o amor de Deus, levando a cura para um mundo corrompido, respondendo de uma maneira integral às necessidades das pessoas: econômicas, emocionais, espirituais e físicas, em âmbito local e global. Podemos e devemos agir.

Ao fazer isso, seguiremos os passos da igreja ao longo da história. No segundo e no terceiro séculos d.C., pandemias terríveis (provavelmente de sarampo ou varíola) se espalharam por todas as partes do que se conhecia como mundo. Naquelas ocasiões, foram os cristãos que permaneceram e cuidaram dos doentes. No século 16, a Europa foi atingida por uma praga, levando as igrejas e seus líderes a discutirem sobre como deveriam responder. Martin Luther preparou um folheto sobre isso, recordando seus leitores sobre as palavras de Cristo: “Estive enfermo, e vocês cuidaram de mim”. Em sua opinião, a igreja devia cuidar das pessoas afetadas (incluindo apoio espiritual, procurando reunir-se como igreja) e tomar medidas para evitar expor as pessoas às doenças. Quando o ebola devastou a África Ocidental em 2014, foram as igrejas locais que ajudaram a liderar o trabalho de enfrentamento. Em Serra Leoa, os cristãos transmitiram vídeos e programas radiofônicos para comunicar mensagens essenciais de saúde. A Tearfund treinou pastores e doou-lhes telefones para que pudessem ligar para as pessoas com ebola. Os pastores conversaram e oraram com elas por telefone. As igrejas prestaram ajuda prática às pessoas em quarentena e os membros das igrejas doaram alimentos, água e produtos de higiene pessoal.

Portanto, temos um papel enorme a desempenhar nesta situação e estamos vendo a igreja responder ao desafio. Em muitas comunidades ao redor do mundo, são os cristãos que coordenam os serviços locais de saúde, criam grupos no WhatsApp para conectar a vizinhança, entregam alimentos e produtos de higiene pessoal àqueles que estão em isolamento e se fazem presentes dando suporte emocional à distância. No campo de refugiados da cidade de Cox’s Bazar, em Bangladesh, as condições estão se deteriorando ainda mais, pois as instalações de saneamento e higiene já são inadequadas, as ruas são estreitas e estão lotadas de gente. Apesar disso, as igrejas parceiras da Tearfund estão distribuindo kits e folhetos sobre práticas de higiene com informações no idioma rohingya a fim de educar as pessoas sobre como lavar as mãos, manter distanciamento e identificar os sintomas da Covid-19.

Quando enfrentamos uma situação como a atual, é natural sentir medo e preocupar-se, e a nossa primeira resposta pode ser entrar em pânico e defender nossos próprios interesses. Mas sabemos que pertencemos a Emanuel, Deus conosco, que compreende o nosso sofrimento, nos acompanha e nos incentiva a levar nossas aflições e preocupações a ele em oração. O arcebispo Justin Welby, no primeiro culto transmitido ao vivo após o fechamento das igrejas no Reino Unido, disse que focar em nós mesmos “apenas evidenciaria os limites dos nossos próprios recursos, causando ainda mais insegurança e egoísmo” e que “para consolar os outros, precisamos encontrar o nosso próprio consolo em Deus”.

Ao buscarmos a Deus, “encontramos maneiras de consolar os que estão amedrontados, apavorados e assustados, bem como aqueles que estão comprando excessivamente por conta do pânico e todos aqueles ao nosso redor que estão ficando mais alarmados”. No momento, somos chamados para cuidar dos outros e de nós mesmos e, por isso, devemos buscar práticas que nos ajudem a confiar em Deus e a encontrar nele a nossa força.

ESPERANÇA PARA O FUTURO

Se dependermos mais intensamente do amor de Deus, escolhendo a fé em vez do medo, podemos descobrir novas oportunidades. Cremos que Deus permite que certas coisas aconteçam no mundo e que ele pode agir para trazer algo bom. Há a possibilidade de que as comunidades se unam ainda mais do que antes; de que as famílias se redescubram; de que pessoas ocupadas sigam mais devagar e estabeleçam um novo ritmo em sua vida; de que as pessoas se reconectem com Deus e com o mundo criado por ele; de que as nações voltem a se sintonizar na palavra de Deus; de que as igrejas aprendam a usar a tecnologia digital para potencializar seus ministérios; e de que desenvolvamos economias locais e empreendimentos que protejam o meio ambiente. Ao sair das condições iniciais extremas da Covid-19, poderemos nos perguntar que tipo de mundo desejamos construir daqui para a frente. Podemos nos arrepender do mundo que criamos, procurando construir um mundo sem um abismo tão grande entre os ricos e os pobres, um mundo que nos permita viver em harmonia com a criação? Um mundo em que entendamos que o bem-estar de um está ligado ao bem-estar de todos?

Por sermos cristãos, somos pessoas orientadas para o futuro. Nossas vidas são motivadas pela visão de futuro que vislumbramos em Apocalipse 21 e 22, de uma época em que Deus habitará plenamente conosco, em um céu e em uma terra transformados. Então, não haverá mais sofrimento, doenças ou morte, e o mundo natural como um todo florescerá conosco. Por meio da indubitável dor e incerteza do momento atual, podemos permitir que a esperança futura motive a maneira como vivemos hoje em dia, ao nos apegarmos a Deus, a nossa rocha, ao orarmos pelas pessoas afetadas e pelo fim da pandemia, e ao olharmos para fora, com amor prático e compaixão.

A Dra. Ruth Valerio é diretora global de Advocacy e Influência da Tearfund, e Gideon Heugh, redator da equipe de Comunicação Global da Tearfund. Artigo originalmente publicado no site Tearfund Aprendizagem. Clique aqui para acessar esse e outros recursos teológicos. 

Foto: Tom Price/Tearfund

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