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Tearfund e Renovar Nosso Mundo se unem na luta contra o coronavírus em Manaus

Tearfund e Renovar Nosso Mundo se unem na luta contra o coronavírus em Manaus

Em meados de março, quando houve o primeiro óbito decorrente da pandemia da Covid-19 no Amazonas, o novo coronavírus já havia atingido 60 dos 62 municípios do estado, totalizando mais de 50 mil casos. Apesar da dimensão do Amazonas (o território equivale ao Sul e ao Sudeste somados), só a capital, Manaus, conta com serviço de UTI. Consequentemente, Manaus foi a primeira capital do país a enfrentar colapso nos sistemas de saúde e funerário por causa da pandemia.

Buscando reduzir os impactos sanitários e econômicos para famílias residentes em 7 bairros da periferia de Manaus, Tearfund e o grupo Interação desenvolveram um projeto emergencial com foco em ações afirmativas de cidadania e apoio aos serviços básicos. De acordo com a professora Socorro Chaves, coordenadora do projeto, o suporte foi idealizado a partir de demandas apontadas pelos beneficiários de forma a assegurar sua condição de cidadãos. 

“Iniciamos fazendo um levantamento junto às congregações em que cada líder indicava as famílias que estavam em situação mais crítica e que precisavam de apoio naquele momento. Os resultados do levantamento indicaram que apesar de quase a totalidade das famílias terem sua fonte de renda advinda de trabalhos informais, apenas 37% das famílias recebia algum tipo de benefício assistencial do governo”, relata Socorro. 

Confesso aos irmãos que quando iniciou a quarentena fiquei muito preocupado, pensando em como iria trazer sustento para a minha família. Mas Deus, na sua soberania e infinita graça, já estava provendo tudo o que nós iríamos precisar nesse tempo em que passaríamos recolhidos. Portanto, quero agradecer a Deus pela vida dos irmãos que, sem nos conhecer, nos amam a ponto de enviar recursos para contribuir com essa causa.”  Pedro Toscano – casado com Edneia Brasil, pai do Jônatas e da Elisa

Ações pela vida 

A desinformação e as notícias falsas podem ser inimigos ferozes em contextos de pandemias. Com o objetivo de conscientizar as famílias sobre a importância de manter o distanciamento físico e de seguir os protocolos de higiene da Organização Mundial de Saúde, Socorro conta que o primeiro passo foi a elaboração de um material didático sobre a pandemia. “O repasse dessas informações aconteceu de forma remota por grupos de WhatsApp e ligações realizadas aos líderes das Igrejas, que nessas atividades foram peças-chave para o estabelecimento da comunicação entre a equipe executora e as famílias participantes”. 

A forma encontrada para difundir o material entre os líderes participantes do projeto foi por meio de um grupo de WhatsApp autodenominado “Ações pela vida”. “Neste momento foi possível juntar os profissionais, a equipe executora, as pessoas que foram assistidas e também alguns participantes da campanha Renovar Nosso Mundo. O espaço proporcionou um ambiente de troca profícua entre os atores envolvidos nas atividades do projeto e a equipe executora, tendo como principal objetivo a divulgação de informações sobre a Covid-19 e oferecendo aos participantes um canal de informações seguro”, conta Socorro. 

Respondendo às demandas 

A crise sanitária causada pela pandemia da Covid-19 impôs consequências ainda mais severas para a população em situação de vulnerabilidade socioambiental. Dados do Instituto Trata Brasil estimam que apenas 53% dos brasileiros têm acesso à coleta de esgoto. Já a população fora da força de trabalho, de acordo com o IBGE, somava 76,8 milhões de brasileiros na primeira semana de julho. Nesta conjuntura, as principais fontes de renda desta população foram fortemente impactadas pela pandemia.

Dentre as principais demandas identificadas e informadas pelas lideranças à equipe técnica do projeto “Ações pela vida” destacaram-se: as condições crescentes de vulnerabilidade social das famílias pela perda de emprego e renda; a dificuldade no acesso aos materiais básicos de higiene e a falta de saneamento nas áreas de habitação das comunidades gerando condições graves de riscos socioambientais.

A resposta emergencial veio em forma de cestas básicas e kits de higiene distribuídos por um período de três meses para 60 famílias moradoras da Zona Leste de Manaus, área em que estão situados os maiores bolsões de pobreza da capital amazonense. Duas famílias venezuelanas foram incorporadas posteriormente e passaram a receber os kits. 

Meu nome é Maria do Socorro. No momento só o meu esposo trabalha fora. Eu ajudo em casa fazendo artesanato. Meu esposo complementa a renda com eventos. Mas devido à pandemia tudo parou e passamos por dificuldades. Graças a Deus fomos contemplados por essa ação! Recebíamos a cesta em nossa porta e era uma alegria em um momento tão difícil. Mesmo sem nos conhecer pessoalmente alguém pensava em nós. Em trazer alimentos. Minha filha ficou muito feliz, ficava ansiosa pelos biscoitos. Foi uma grande ajuda que jamais vamos esquecer!”.  Maria do Socorro Santos, casada, mãe de três filhos. 

Protocolos de segurança 

Além de terem sido indicadas pelos líderes de suas congregações, as famílias beneficiadas tinham de aceitar cumprir as orientações determinadas pela OMS, pelo Governo Estadual do Amazonas e pela Prefeitura de Manaus para a prevenção da disseminação do novo coronavírus, além de se comprometerem em manter o distanciamento físico 

e participarem de atividades socioeducativas propostas pela equipe de coordenação do Ações pela Vida. 

Essas cestas básicas que recebi sempre chegaram na hora exata! Tenho uma filha que estava grávida durante o isolamento social. Ela tem mais dois filhos pequenos. O marido foi embora e não ajudava em nada. Por isso esses alimentos foram uma benção em nossas vidas! Agora temos um bebê em casa, as dificuldades não terminaram, mas creio que tudo vai se ajeitar. Agradecemos às pessoas que nos mandaram esses alimentos e kits de higiene e o caríssimo álcool gel. Deus abençoe suas vidas!”. Maria das Chagas Soares Sousa, 64 anos, viúva, beneficiária do INSS. 

Outra dificuldade mapeada durante a execução das ações emergenciais foi o acesso à equipamentos de proteção individual (EPIs). Nesta etapa foi realizada a compra e distribuição de material (tecido, linha e outros materiais) para confecção de máscaras que foram produzidas por participantes de Renovar Nosso Mundo. “A confecção das máscaras teve como objetivo principal o incentivo de geração de renda no período de pandemia, além é claro da possibilidade de disponibilizar esse EPI aos participantes do projeto”, ressalta Socorro. 

Atendimento remoto

Socorro conta que a partir do aumento no número de casos e até de óbitos em decorrência da Covid-19, o grupo “Ações pela Vida” tornou-se um referencial para várias pessoas que procurava orientações quando começavam a perceber os sintomas da doença. A partir desta nova demanda um grupo composto por médicos, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras e biólogos passou a realizar voluntariamente o acompanhamento remoto das famílias que relataram sintomas.  

O problema não era só as pessoas estarem doentes de Covid, era também o isolamento social, o medo que as pessoas sentiam, elas passavam por crises emocionais bem complexas. Então, por meio de professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) fizemos contato com um hospital de Roma (Itália) que passou a apoiar a equipe que trabalhava conosco de forma que pudemos oferecer aos beneficiários do nosso projeto e até mesmo para outras famílias vinculadas às igrejas participantes da comunidade um atendimento especializado de saúde”, pontua Socorro. 

Plantas medicinais 

Na Amazônia, o uso de plantas medicinais e o cultivo das mesmas para a prevenção e cura de doenças faz parte dos saberes transmitidos entre as gerações de amazônidas, bem como seus respectivos usos e receitas. Assim, o uso de plantas dos quintais constitui-se em uma horta-farmácia prazerosa. Da dificuldade em prescrever medicamentos para as famílias que buscavam atendimento remoto surgiu a ideia de resgatar a produção de mudas como um componente de apoio ao tratamento. 

Socorro conta que a iniciativa foi muito bem recebida pelas famílias beneficiárias, tendo em vista que as plantas produzidas foram aquelas que já são vastamente conhecidas na região, seja para remédio e/ou uso na culinária, mas que são de difícil acesso no meio urbano e no período da pandemia tornaram-se totalmente escassas.  

A entrega das mudas produzidas para suprir as demandas durante a pandemia foi acompanhada pelo envio contínuo de receitas sobre seu uso para os grupos do WhatsApp. Dentre as propriedades terapêuticas das plantas cultivadas estavam: efeitos calmantes e anti-inflamatórios, antiespasmódicos, digestivos, ansiolíticos e sedativos leves. 

Cuidado com a Criação

Com o propósito de incentivar as famílias que estavam em distanciamento físico a desenvolverem, compartilharem e vivenciarem momentos lúdicos e recreativos em seus respectivos ambientes domésticos, além de estimular o estudo da Bíblia, o grupo “Ações pela Vida” propôs três atividades para crianças e adolescentes. 

A primeira tarefa consistia na elaboração de uma poesia de acordo com o Salmo 3:8 “Do Senhor vem o livramento, a tua bênção está sobre o teu povo”. A segunda atividade propôs que os participantes demonstrassem os cuidados com a criação de Deus por meio da elaboração de desenhos com frases ou versículos sobre cuidados com o meio ambiente. A terceira atividade pedia a indicação de formas de se evitar o contágio pelo coronavírus. Todos os participantes da gincana receberam um Kit com materiais escolares que foram entregues em suas congregações.  

De acordo com Socorro Chaves, além de ser uma atividade socioeducativa, a gincana teve como principal objetivo incentivar os membros das igrejas e congregações participantes da Renovar Nosso Mundo a se engajarem na divulgação de ideias sobre cuidados com a criação de Deus. 

É difícil dizer o significado que o projeto teve em tão pouco tempo porque ele significou muito para as igrejas que participaram. Os pastores entenderam o significado da campanha Renovar Nosso Mundo de maneira bem prática e nos contaram que o projeto ajudou a resgatar o compromisso das pessoas com a boa mordomia da criação”, comemora Socorro. 

Conclusão

O projeto foi executado entre abril e julho de 2020 e teve como principal objetivo suprir as demandas sociais e ambientais de famílias residentes na Zona Leste de Manaus durante o distanciamento físico imposto pela pandemia da Covid-19. Neste período o estado do Amazonas apresentava o quadro mais grave de contaminação do país. O Sistema de Assistência à Saúde já precário enfrentava situação de colapso pelo excesso de demanda e a crise social foi agravada nos bairros da periferia da capital.

As atividades emergenciais e ações socioeducativas foram realizadas com o duplo propósito de suprir a carência de alimentos e conscientizar as famílias sobre a prevenção da Covid-19. “Deste modo, esta proposta buscou contribuir ainda que minimamente para a diminuição do impacto negativo da pandemia no contexto familiar dos participantes do projeto”, conclui a professora Socorro.

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