| | | 55 31 3568-1401

Sheryl Haw: "Não se pode adorar um homem pobre no domingo e ignorar os pobres na segunda"

Sheryl Haw: “Não se pode adorar um homem pobre no domingo e ignorar os pobres na segunda”

Você não pode adorar um homem pobre no domingo e ignorar os pobres na segunda-feira. Não pregamos que Jesus era pobre, mas ele era!”.

Com estas palavras, a diretora internacional de Miqueias Global, Sheryl Haw, exemplifica a importância da coerência entre fé e prática. Entre os dias 26 a 29 de junho de 2017, Sheryl participou do Congresso Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, em Vitória. Na ocasião, concedeu à Tearfund Brasil uma entrevista em que falou sobre Missão Integral e evangelismo.

Sheryl Haw nasceu e cresceu no Zimbabwe, onde sua família reside até hoje. Nos últimos 20 anos trabalhou na área da assistência humanitária, 13 dos quais junto à organização Medair (organização cristã humanitária que atua em lugares remotos e em contextos de crise). Durante 5 anos, trabalhou com a HAP International (Humanitarian Accountability Partnership) como Gerente de Desenvolvimento de Padrões e Certificação e auditora de contas. Ela também lecionou no All Nations Christian College sobre Missão Integral e Prática de Desenvolvimento.

Confira a íntegra da entrevista abaixo:

Qual a sua avaliação geral do Congresso Miqueias Caminhos da Missão?

Primeiramente foi muito inspirador perceber que há pessoas de todas as regiões do Brasil aqui. Eu não sei como vocês conseguiram isso, mas foi um grande feito! Para que possamos entender a mudança que Deus deseja, precisamos conhecer uns aos outros. Para conhecer uns aos outros, precisamos nos encontrar e ouvir uns aos outros. Por isso este tipo de Congresso é absolutamente essencial e nós precisamos continuar fazendo isso porque leva tempo para construir relacionamentos de confiança e leva tempo para entender o que Deus está realmente fazendo. Portanto, essas reuniões nacionais são uma peça-chave.

O próximo passo para nós aqui no Brasil é fazer com que os estados e as regiões tenham pequenos catalisadores porque é muito caro sempre organizar um congresso grande como este. Precisamos criar pequenos espaços com duração de tempo menor em que as pessoas possam construir uma rede de contatos e para que, a partir deste momento em que conhecemos os dons uns dos outros, criemos um movimento. Minha esperança é a de que as pessoas voltem para a casa inspiradas e desejando mais. Essa é a chave de sucesso: as pessoas desejam mais? Criamos essa fome? Eu acredito que sim!

Mas o que me preocupa no Brasil e o motivo pelo qual este encontro requer mais discussão é o ambiente político aqui. A Igreja está ferida e nós não falamos sobre isso. Deveríamos ter ajustado o programa para suprir esta necessidade, mesmo que fosse apenas uma plataforma que reconhecesse que esta é uma questão que levanta alguns pontos. Miqueias precisa estar sempre atento ao que está acontecendo em cada país.

Como fazer isso quando os cristãos estão divididos entre si?

Não cabe a nós termos as respostas ou dizer o que é certo ou errado. Nosso papel é perguntar “O que a Bíblia diz?”. O que significa procurar o Reino de Deus no campo político? Não precisamos responder as perguntas ou rotular a divisão.  Precisamos indagar: “Qual é a história ao longo da História na Bíblia?”,  e perguntar a Deus: “O que fazemos com a nossa dor? Com a separação?”. Porque Ele é o Príncipe da Paz! A partir daí, nos tornaremos reconciliadores. E ser reconciliador não significa sempre concordar uns com os outros. Miqueias não deve ter medo de saltar no meio de toda a discordância e apenas dizer: “Vamos ver o que a Bíblia diz!”. Sempre que for necessário! Cultivamos o hábito de nos apressarmos para apresentarmos respostas enquanto Jesus, quando lidava com questões complicadas, não respondia. Ele contava histórias que ajudavam as pessoas a refletirem. O que Miqueias deve fazer no Brasil é ajudar a reformular a História. Porque, de outra forma, as pessoas permanecerão em silêncio.

Muitas pessoas me perguntam o que é mais importante: evangelismo ou ação social. Eu respondo que a questão está errada! Pense em um avião, o evangelismo é a asa esquerda e a ação social é a asa direita. Faz sentido perguntar qual das duas asas é a mais importante? Não! É uma pergunta tola! Então o que Miqueias tenta fazer é reformular a questão para que possamos avançar nesta jornada transformadora. E eu acho que Satanás vem e nos faz perguntas que são preto ou branco e que geram conflito. Certamente a pergunta que todos devemos fazer é: “Qual é a Missão de Deus para nós?”.

A partir daí também podemos nos perguntar: “Qual é a missão de Deus para a homossexualidade?”; “Qual é a Missão de Deus para o conflito na igreja no Brasil agora?”.  A partir da forma como nos aproximamos do problema, tudo muda. Jesus nunca olhou para alguém e disse: “Você é democrático, republicano, gay, heterossexual, etc.”.  Ele olhava para a pessoa e dizia: “Siga-me”.   Isso nos diz que estamos fazendo as perguntas erradas! E isso é o que Miqueias pode trazer para a discussão. É por isso que este Congresso é fundamental. Mas isso também significa que precisamos ser bastante corajosos para abordar as perguntas desta forma. E mais: precisamos nos certificar de que temos uma ampla gama de opiniões, mesmo que sejam divergentes. A partir daí o nosso papel será ajudar a reformular essas opiniões. E isso requer certa habilidade.

Mas como trazer para o nosso meio essas opiniões divergentes?

Leva tempo. Você precisa conhecer as pessoas e ser corajoso para convidar aquelas que são inesperadas. Há pouco tempo participei de uma discussão muito interessante. Ela girava em torno da questão:  “O proselitismo religioso é aceitável no trabalho das agências de assistência humanitária? Podemos evangelizar enquanto fazemos o nosso trabalho?”. Em nossa mesa havia um muçulmano, um ateu, uma funcionária da Tearfund Suíça e eu.

Então eu lhes contei uma história do tempo em que eu trabalhava na Somália, que é um país de maioria muçulmana. O primeiro paciente que recebi chegou quase morto e quando eu me deparei com a condição grave de saúde dele e com os poucos recursos médicos que tínhamos, eu disse a eles:  “Eu quero ajudá-lo, estou aqui para servir. Mas não tenho os suprimentos médicos e mesmo que estivéssemos no melhor hospital do mundo, este homem estaria prestes a morrer”. Eu estava com medo de dizer a próxima frase porque eu não queria ofendê-los, mas, como cristã eu sei que Jesus tem a chave da vida e da morte. Então falei: “Eu sou cristã e acredito que Jesus tem a chave da vida e da morte. Por isso, se vocês me derem permissão eu vou orar por ele no nome de Jesus”.

Inicialmente eles ficaram um pouco surpresos, mas Deus colocou em meu coração um forte desejo de permanecer em oração naquela noite. Na manhã seguinte ele ainda estava vivo, mas parou de respirar por cerca de 2, 3 minutos. Ele estava amarelo brilhante, provavelmente tinha algum tipo de problema no fígado. Eu falei novamente que a única coisa que eu podia fazer por ele era orar, mas só oraria se me dessem permissão enquanto comunidade e que só poderia fazer isso no nome de Jesus.  Então eles disseram: “Tudo bem, ore”.  E eu disse somente: “Em nome de Jesus, fique curado”. No minuto seguinte ele estava plenamente curado.

Ao encerrar esta história eu perguntei ao ateu: “De que maneira eu fiz proselitismo religioso? De que maneira eu abusei da minha posição de poder? Eu não tinha nenhum poder. Eu não tinha sequer equipamento médico! Eu fui sensível à cultura e respeitei a religião local, mas eu também tive a chance de oferecer vida através de Cristo!”.  Ao que ele me respondeu: “Você não fez proselitismo religioso”.

Eu comecei uma amizade com este homem e pelos próximos 6 meses ele e eu caminhamos juntos pelo Novo Testamento todas as manhãs. Eu não sei se ele se tornou cristão, mas 6 meses depois, quando eu tive malária, ele foi a primeira pessoa a cuidar de mim. Nós nos tornamos amigos e, juntos, lutamos pelo fim da circuncisão feminina naquele país. Onde eu fiz proselitismo? Fui honesta com a minha fé quando disse a eles que era cristã.

A questão do poder é uma questão global, independente de trabalharmos em uma instituição confessional ou não. Esse tipo de conversa é fundamental e o que eu gostaria que Miqueias fizesse no Brasil é facilitar esse tipo de conversa, não apenas no mundo cristão. Precisamos ter certeza de que nossa história em Cristo é verdadeira e de que não precisamos defendê-la, somente compartilhá-la. Compartilhe a história sobre como fazemos o nosso trabalho e não se preocupe. A história vai falar por si mesma. A partir daí eu acho que vamos ver algumas mudanças. Claro que também receberemos críticas, mas Jesus também recebeu. Não há nenhuma novidade nisso.

Na sua opinião, por que a igreja nem sempre faz as perguntas corretas? 

Porque não percebemos que os valores do mundo nos influenciaram. Os capítulos 8 a 10 do evangelho de Marcos relatam algumas passagens que ilustram bem o que quero dizer. Jesus  está prestes a morrer, e ele diz isso aos discípulos que caminharam com ele por três anos. A esta altura é de se esperar que eles sejam os melhores da igreja, certo? Mas da primeira vez em que Ele prediz sua morte, Pedro começa a repreendê-lo por isto. E o que Ele diz? Pedro, você está errado! Você não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens!”. (Marcos 8:31-33)

Em Marcos 9 encontramos o relato da segunda vez em que Jesus prediz sua morte: “Porque estava ensinando os seus discípulos. E lhes dizia: “O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e três dias depois ele ressuscitará”. Mas eles não entendiam o que ele queria dizer e tinham receio de perguntar-lhe. E chegaram a Cafarnaum. Quando ele estava em casa, perguntou-lhes: “O que vocês estavam discutindo no caminho? ” Mas eles guardaram silêncio, porque no caminho haviam discutido sobre quem era o maior.” (Marcos 9:31-34)

Já na terceira vez em que Ele fala que será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei. E que eles o condenarão à morte, mas que três dias depois Ele ressuscitará, Tiago e João se aproximam dele e dizem:  “Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda”.
(Marcos 10:33-37)

E ele diz: “Meu Reino não é de poder, mas de serviço às pessoas menos significantes e vulneráveis”. E isso acontece horas antes de Jesus ser preso. Ele deve ter ficado desesperado! “Depois de tudo o que eu lhes ensinei eles ainda estão discutindo sobre status, poder e posição!”. Na igreja nós temos o mesmo problema. Estamos preocupados com todas essas coisas e a única maneira de lidar com isso é ensinando o evangelho puro. Quero dizer, teologia de excelente qualidade, sempre centrada em Cristo! Sempre que nos afastarmos disso perderemos o caminho. Aí é preciso retomar isso quantas vezes forem necessárias.

Se Jesus depois de três anos ainda tem que ensinar o básico a esses 12 apóstolos, não devemos perder a esperança na igreja. Nós temos que continuar dizendo e, acima de tudo, vivendo aquilo que ensinamos. Veja o exemplo dos países africanos. Assistimos ao presidente chegando em grandes carros, sempre cercado por vários criados. Quando olhamos os líderes religiosos, eles se comportam exatamente da mesma maneira. E as pessoas ainda dizem que não se pode acusar os homens de Deus! É claro que podemos! Quem está influenciando quem? Esse não é o tipo de liderança que Deus exige. Todo o livro de Miqueias fala sobre má liderança. Então, este é um chamado difícil, mas devemos começar de alguma forma.

Por que você decidiu fazer parte da Rede Miqueias?

Eu trabalhei com assistência humanitária por mais de 20 anos e sempre enxerguei carreira, dons e a Missão de Deus como parte de um mesmo pacote. E na Rede Miqueias eu vi a oportunidade de juntar tudo isso. Você pode trazer suas habilidades e sua missão como uma coisa só. E essa é a mensagem de Miqueias. Ao longo dos anos eu percebi que as agências de assistência  humanitária se profissionalizaram muito, e elas de fato precisavam disso. Mas por outro lado elas perderam a riqueza da espontaneidade do Evangelho. Por vezes as pessoas ficam com medo de compartilharem abertamente sua fé ou de orarem pelos doentes. Precisamos chamar as pessoas de volta ao motivo principal pelo qual elas decidiram trabalhar na área da assistência humanitária. Queríamos dizer ao mundo a razão pela qual temos esperança: Jesus Cristo está agindo na História! Miqueias está chamando as pessoas de volta a esta maneira de viver.

Você tem grandes expectativas para a rede Miqueias no Brasil?

Com certeza! Porque há um forte movimento cristão no Brasil. Este movimento está ferido agora, eu sei disso. Mas acredito que há uma paixão e uma compaixão nos cristãos no Brasil que pode ajudá-los a encontrarem o caminho. Então se pudermos criar um espaço para acelerar isso, é o que vamos fazer. Em toda a África você vê cada vez mais e mais missionários brasileiros. Eles são melhor recebidos e são mais fáceis de se integrarem do que os europeus. O potencial de servir o resto do mundo no Brasil é enorme se as pessoas capturarem essa visão. Então, para mim, este é um lugar chave para que Miqueias esteja. Eu apenas espero que a língua possa encontrar maneiras de fazer os recursos de aprendizagem saírem do Brasil para o resto do mundo e trazer o resto do mundo para aprender aqui. Não podemos permitir que o idioma seja uma barreira. Temos de encontrar maneiras de fazer isso.

Eu estava conversando com pastores no Quênia no mês passado e eles disseram: “Estamos pregando o Evangelho fielmente ano após ano e não sabemos por que o Quênia continua sendo uma das nações mais corruptas do mundo quando 80% da população se declara cristã. O que estamos fazendo errado? Não temos visto o poder da transformação sobre a qual Jesus fala!”. Eu respondi: “Esta é uma ótima questão”.

Esse tipo de insatisfação gera um clamor a Deus: “O que estamos fazendo de errado?”. Creio que não se trata necessariamente de fazer algo errado, mas de não ser coerente com o que se ensina. Você não pode adorar um homem pobre no domingo e não enxergar o pobre na segunda-feira. Nós não pregamos que Jesus era pobre! Mas Ele era! Não ensinamos esse Evangelho, mas sim um evangelho de prosperidade. Precisamos nos voltar para o verdadeiro Jesus e então as pessoas estarão famintas por isso. Porque o Espírito cria essa fome!

Há alguma outra coisa que você gostaria de acrescentar?

Um risco que sempre corremos nos movimentos nacionais da Rede Miqueias é o de nos voltarmos para a  criação de organizações com estruturas restritivas. De fato precisamos de comitês e de pessoas liderando. Mas somos um movimento e um movimento é um pouco caótico. Temos de aprender a lidar com isso. Precisamos ser catalíticos. Temos de garantir que a estrutura que trazemos gera vida e não limitações. Temos de ser completamente subversivos e mostrar um tipo diferente de poder em Miqueias.

Leia também:

Ronilson Pacheco: “A violência institucionalizada do Estado é intocável pelo seu caráter sacralizado”

“Fomos criados para viver em harmonia com Deus, com o próximo e com a criação de Deus” – René Padilla

Congresso Miqueias Brasil: Um convite à Missão!

René Padilla: “Há essa falta de consciência entre os cristãos de que somos cidadãos do Reino de Deus e do mundo”

Andrea Vargas: “Se a igreja focar primeiro em gerar vida, nosso modus operandi vai ser outro”

Leave a Reply