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Setembro Amarelo: índice de suicídio entre crianças e adolescentes indígenas aumentou 100% em 10 anos

Índice de suicídio entre crianças e adolescentes indígenas aumentou 100% em 10 anos

No Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (10 de setembro), a Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS) alertaram para este grave problema de saúde pública responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo.Em comunicado, a OPAS/OMS reconheceu o suicídio e as tentativas de suicídio como uma prioridade na agenda global de saúde e incentivou os países a desenvolverem e reforçarem estratégias de prevenção, quebrando estigmas e tabus existentes sobre o assunto.Segundo dados de 2012 da agência da ONU, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Setenta e cinco por cento dos suicídios ocorrem em países de baixa e média renda.

No Brasil, os índices de suicídio entre crianças e adolescentes aumentaram cerca de 10,52% de 2003 a 2013. Estes dados tornam-se ainda mais preocupantes quando a análise recai sobre populações indígenas. Os números integram o relatório sobre Violência Letal contra crianças e adolescentes no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, a Flacso.

Municípios do Amazonas e do Mato Grosso do Sul estão no topo da lista de suicídios entre crianças e adolescente indígenas. No mundo os povos indígenas são a população mais susceptível a cometer suicídio: no Brasil a taxa de suicídio entre os povos indígenas é seis vezes maior que a taxa nacional. No município de São Gabriel da Cachoeira, AM, também conhecido como a cidade dos enforcados, os dados do Mapa da Violência 2014 revelaram que, entre 2008 e 2012, a taxa de suicídios na cidade foi de 50 casos por 100 mil habitantes, dez vezes maior do que a média brasileira. Entre os que se mataram, 93% eram indígenas. Oito entre dez se enforcaram.

Mato Grosso do Sul e Amazonas concentram cerca de 81% dos casos de suicídio do país. No primeiro, as taxas são 34 vezes maior do que a média nacional. O valor sobe ainda mais entre os jovens. O Brasil tem cinco casos de suicídio a cada cem mil habitantes; entre os jovens indígenas de MS, esse número chega a 446 casos para cada cem mil. Só em 2015 foram 45 suicídios, sendo 33 homens e 12 mulheres, a maioria entre 10 e 29 anos, ano passado foram 36 homicídios, de 34 homens e duas mulheres, a maioria entre 15 e 29 anos. Em 2014 o Distrito Sanitário Especial Indígena do Mato Grosso do Sul (DSEI-MS) teve 619 registros de violência física e 32 de violência sexual. A maioria dos casos ocorreu em Dourados e em Amambai.

Diante desta triste tragédia que encontra pouquíssimo espaço para discussão e reflexão na esfera pública, é mister ouvir vozes silenciadas. Para estimular uma reflexão bem fundamentada separamos abaixo trechos escritos pela militante indígena Daiara Tukano:

Num panorama mundial em que a depressão se tornou epidemia entre os adolescentes, a discriminação é um agravante para os jovens indígenas que se encontram cada vez mais imersos no dilema de caminhar entre o choque de dois mundos: para nós, sobreviver ao genocídio é uma missão passada de geração em geração, continuar existindo como indígenas apesar daqueles que a todo momento negam nossa história, nossa identidade, nossa dor, nossa capacidade, nossa cultura e nossa beleza das maneiras mais diversas. Para aqueles que estão em retomadas e outros conflitos de território, a violência explícita de ameaças, estupros, incêndios, tiroteios e assassinatos são um quotidiano que inviabiliza a sanidade mental: além de sobreviver à miséria, é impossível fugir da tristeza quando se nasce no meio ao genocídio. Parece que nossa herança sempre vai incluir a maldita lista de óbito, de nossos vizinhos e familiares pelos motivos mais diversos: desnutrição, falta de medicação ou atendimento médico, inúmeras doenças e acidentes por falta de estrutura, e o álcool. As experiências de combate ao suicídio indígena apontam também que ainda que pareçamos fadados à tristeza, nossa alegria pode se encontrar na afirmação e celebração de nossa indígena e na desconstrução histórica do processo colonial: ter acesso à justiça histórica, ao reconhecimento e aceitação de nossas identidades, celebração, valorização e prática da beleza de nossas línguas e de nossa cultura, garantir o direito à nossos territórios, e ao esforço coletivo em desconstruir a narrativa da colonização que sistematicamente nos empurra à invisibilidade, marginalização e negação de nossos corpos.” (Leia a íntegra do texto escrito por Daiara Tukano aqui)

Neste mês de setembro em que muitos olhares se voltam pela primeira vez para esta triste realidade, abordamos esta temática para conclamar cristãs e cristãos de todo o Brasil a se envolverem ativamente na campanha Setembro Amarelo. Que possamos trazer à memória aqueles que já vêm sendo esquecidos há centenas de anos, como é o caso dos indígenas brasileiros. Vamos juntos lançar um clamor por misericórdia e por esperança.

Por favor, ore:

  • Pra que a Igreja assuma seu papel preventivo no que tange à temática do suicídio e para que este assunto não seja mais um tabu entre os cristãos
  • Pela demarcação das terras indígenas no Brasil e por novas perspectivas de estudo, trabalho e possibilidades de viver segundo a sua cultura para os jovens indígenas brasileiros
  • Pelo fim do genocídio indígena que vem acontecendo de forma sistemática há mais de 500 anos no Brasil

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