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Ronilson Pacheco: “A violência institucionalizada do Estado por vezes é intocável pelo seu caráter sacralizado”

Ronilson Pacheco: “A violência institucionalizada do Estado é intocável pelo seu caráter sacralizado”

A busca pela Equidade é papel de todos os cristãos. E nessa busca a luta contra a violência é fundamental. Para Ronilso Pacheco, estudante de teologia da PUC Rio e membro da Igreja Batista Redenção, em São Gonçalo, a violência no Brasil é institucionalizada e sacralizada. Em sua palestra no Congresso Miqueias Caminhos da Missão, a Igreja e seu tempo, realizado entre os dias 26 e 29 de junho de 2017 em Vitória, Ronilso desafiou os presentes a se posicionarem contra todas as formas de violência física e simbólicas perpetuadas diariamente em nosso país. Reproduzimos abaixo a íntegra da palestra.

Desafios do tempo – Por Ronilso Pacheco

Vitória, 27 de junho de 2017

A violência, em especial a violência institucionalizada, está, em grande parte, envolvida por uma religiosidade sacralizadora, sacralização em que o ordenamento jurídico e Estado policial também são ordenamento cristão e Estado de repressão e punição de pecados em sociedade. Por sua vez, o racismo deveria envolver o arrependimento de uma profunda herança colonial-escravocrata que permanece atuante nas relações sociais brasileiras. Todas as relações sociais brasileiras. Inclusive na igreja.

Então poderíamos pensar por que violência e racismo não são alguns dos eixos centrais das nossas conversas. Antes de discutir as ameaças para o estabelecimento da equidade, talvez fosse necessário conversarmos sobre como o poder – em sua forma-Mercado, forma-Lei e forma-Religião convergem e conspiram conjuntamente para bloquear a equidade. Como juntos operam para decidirem o que funciona na gestão da sociedade. A gente sabe que uma das principais perguntas que o capitalismo enquanto sistema deixou sempre evidente é “o que funciona” e se funciona, como gera lucro.

Talvez já tenhamos nos perguntado bastante sobre para que funciona e a quem beneficia a concentração de terra, a privatização das águas, a exploração do trabalho mal remunerado e de longas jornadas. Mas eu perguntaria ainda para quem funciona e a quem beneficia a proibição das drogas e uma política de segurança que nitidamente só tem na sua trajetória mais homens, mulheres e crianças assassinadas, vitimadas, mais pretos e pobres encarcerados, do que solução efetiva no impedimento de que mais pessoas comprem, trafiquem e usem.

Para quem funciona o assassinato de 315 mil jovens em dez anos vítimas de armas de fogo, de todos os lados, quase todos pretos?

Para quem funciona a concentração dos lugares de poder e produção do saber, inclusive o teológico, nas mãos, vozes e pensamentos brancos, machos e urbanos, jogando para o gueto da marginalidade vozes, práticas, pensamentos e produção de saberes, inclusive teológicos, de negros, indígenas, mulheres, outras e outros?

As violências são muitas e de muitas formas: físicas ou simbólicas, gritantes ou silenciosas, evidentes ou veladas, afetam o corpo ou diminuem a alma. O fato é que as violências são muitas e a violência está na espiritualidade do Estado. A violência não é mais para sustentar o Direito, a violência agora é para sustentar o mercado – já que chegamos neste tempo em que se parece desvincular direitos da instância do Estado e vincular o acesso à cidadania à participação ativa nos espaços religiosos e do mercado, associando cidadania a consumo, como diria Franz Hinkelammert.

Meu palpite é que precisamos de uma política escatológica radical. Ou, em outras palavras, entender a crítica a ser feita como a última crítica a ser feita é a radicalização de todas as formas de enfrentamento que temos feito até agora. É uma pena que estejamos deixando de fora violência e racismo. E quando eu falo violência e racismo eu não estou dizendo violência e racismo pura e simplesmente. O racismo está ali, atravessado, instalado como um hospedeiro na desigualdade que nós dizemos cuidar e enfrentar, nós estamos correndo o risco de perder o kairós da crítica.

Se estamos considerando que a desigualdade a ser enfrentada e criticada apontando e denunciando que há uma pequena parcela detentora de riqueza e uma imensa massa de miseráveis, perdemos a oportunidade de aprofundarmos nossa crítica. Nós já sabemos bem como opera a desigualdade, e nos empenhamos em aplaca-la e denuncia-la de muitas maneiras, uns mais, outros menos. Mas o que ainda não está sendo dito, e a gente está se recusando a dizer, é que a maioria esmagadora desses que estão na ponta da desigualdade é preta, ou estão na linha temporal direito dos instrumentos de exclusão, repressão e descarte que a sociedade colonial-escravocrata brasileira dedicou à população negra.

O sujeito negro no Brasil não é só aquele da pele preta como a minha, mas é todo homem e mulher, e criança, cuja única política pública do Estado, e única percepção construída na sociedade que sobrou foram aquelas mesmas pensadas, construídas, impostas e praticadas para a população escravizada.

A criança pobre, órfã e preta que você pode estar apadrinhando hoje é consequência direta e lógica da política de destruição do laço familiar e da formação do contingente de crianças abandonadas com a Lei do Ventre Livre, bem como a proibição da matrícula de crianças negras nas escolas do Brasil republicano. A família que mora em condições precárias na favela violenta que o seu projeto social assiste hoje é herdeira direta da população expulsa dos centros urbanos, sem trabalho, sem casa e sem destino, para que capitais fossem construídas como sinal de progresso e higienizadas de uma gente preta, indígena e pobre. A comunidade onde você tem um projeto de desenvolvimento comunitário pode ter tido origem na escolha a dedo pelo poder racista de um lugar para jogar o contingente negro expulso das fazendas e dos engenhos que queriam se livrar de mão-de-obra escravizada e agora adotaria mão-de-obra remunerada, mas italiana, alemã, sueca, holandesa, espanhola, polonesa, etc…

Repare que são as mulheres negras que têm os piores atendimentos no sistema de saúde e são as que mais morrem em trabalho de parto. Até aí, nenhuma surpresa visto que o próprio Ministério da Saúde lançou, em 2014, uma campanha contra o racismo no SUS. E qual igreja centenária no Brasil não conviveu com a escravidão ou com os seus espólios, ou quiçá, tenha se beneficiado dela em algum momento? Então se seu ministério de ação social, projeto, organização, ou algo do tipo tem o rosto de uma criança preta estampado no cartaz ou uma mulher negra, ou um nordestino calejado ou uma indígena sorridente, ou jovens negros, então você pode começar a se perguntar o que o racismo tem a ver com a equidade.

Da mesma forma, se falo de violência, não estou me referindo apenas às violências que nos fazem discutir todos os dias. Mas a violência que se tornou quase um espírito do Estado.

A desigualdade não pode ser gestada sem violência, e a violência institucionalizada do Estado por vezes é intocável pelo seu caráter sacralizado. Sua áurea é necessária para a manutenção da lei e da ordem e lhe permite sair sem arranhões de nossas reflexões, projetos, debates, congressos, sermões, denúncias. Abrem igrejas, inclusive em espaços institucionais onde a violência é celebrada, desde que a violência esteja ungida em defesa da lei e da ordem.

Talvez o momento seja do conflito entre a reputação e o risco. Manter a Equidade enquanto tema que não desconcerta nem perturba, pensada estrategicamente e de maneira geral acessada a partir de diversas ações sociais por um lado. Por outro, se arriscar a enfrentar frontalmente as estruturas cuja presença está nas nossas práticas reproduzidas ou legitimadas no nosso silenciamento ou falta de percepção.

Porque quando as situações se radicalizam os enfrentamentos são feitos de fato por quem se dispõe aos riscos. E quase sempre os riscos são corridos pelos explorados e para quem não resta muita opção a não ser se arriscar até o fim, subverter tudo, confrontar tudo, repensar tudo, desafiar tudo, se expor. É isso ou sacralizar a reputação, ainda que isso se chame de equilíbrio, ponderação, sabedoria, discernimento, precaução ou estratégico. Não que isto seja necessariamente um problema, mas que nos obriga a fazer perguntas.

Neste sentido a parábola do Bom Samaritano pode ajudar a ampliar e radicalizar a nossa solidariedade e a nossa crítica, visto que a parábola também nos mostra que o poder e a religião engoliram a espiritualidade baseada na fé e na alteridade. Ali também há um conflito entre a reputação e o risco. Levita e Sacerdote, sujeitos do status quo do templo, não se arriscariam a se envolver numa história que não conheciam. Não iriam se expor a uma crítica corporal à violência que eles não sabiam porque havia sido cometida. Visto que eles nada sabiam sobre a razão do homem estar ferido no chão, sem fazer ideia que se tratava de assalto ou uma violência deliberada, o corpo do homem estendido no chão poderia ser o corpo de alguém que procurou o que teve, consequência dos seus atos, punição por algo que cometeu, violência que nunca vem à toa. Talvez eles já até tivessem avisado que se o homem estivesse no templo estaria seguro.

Como eles iriam se colocar em risco para uma crítica à violência, acolher um corpo violentado que poderia significar colocar em risco a sua reputação? Quem sabe na cabeça do Levita e do Sacerdote eles não foram negligentes ou indiferentes, mas antes, agiram com prudência e precaução? Então só mesmo um samaritano. Só mesmo quem já não tinha qualquer prestígio ou atenção. Alguém que já não é visto como povo de Deus ou como santo. Só alguém que se expõe ao risco da crítica corporal à violência sem nenhuma reputação ou tradição a zelar faria o que fez.

Na história de Jesus o socorro dado pelo samaritano é também sua crítica ao templo que se rendeu ou silenciou mediante o poder (e sua produção da exigência o tempo, da precaução e do medo) e a religião (e sua prioridade equivocada no zelo pela casa de Deus mais do que aos corpos em que Deus habita).

Quais seriam algumas das muitas identidades do corpo socorrido pelo samaritano? O jovem negro? A mulher estuprada? A travesti? A trans? O adolescente em ato infracional? O sem-terra? Um pobre trabalhador da favela? O suspeito de envolvimento com o tráfico? O traficante? A criança abusada? O companheiro do jovem gay? O indígena que ocupou a Funai? A sem teto que ocupou o prédio outrora abandonado?

Por fim, temos que lidar com o fato de que Deus, em Jesus, se fez humano, ser uma chave central para aprofundar nossa crítica aos impedimentos dados à equidade. Porque Deus se fez homem, Deus se fez corpo e corpos. Deus assume corpo e corpos. Racismo e violência interditam corpos. A equação é: cada corpo que o racismo e a violência e suas variantes interditam, a igreja deveria assumir.

A violência contida na homofobia está sistematicamente executando, eliminando corpos de homens e mulheres cheios de sonhos, desejos, projetos e ávidos por vida em abundância. Deus que se fez humano, se fez corpo, assume as dores de qualquer corpo e este corpo pode ser gay, lésbica, trans, travesti, seja quais corpos forem também. A equidade é impedida pelo racismo e pela violência que e as desigualdades neles e nelas se tornam intransponíveis. Nós nunca levaremos isso à sério se não assumirmos estes corpos como Deus assumiu um corpo.

Deus se fez humano e se fez corpo, sangrou no corpo dos encarcerados, torturados, tratados como restos de gente numa lógica punitiva e geradora de violência que não cessa. A equidade não chega aos corpos das penitenciárias porque é basicamente um consenso entre a sociedade que estes corpos não são passíveis de equidade.

Nós nunca faremos uma crítica séria e nos arriscaremos ao enfrentamento de uma política pública de segurança ineficaz, desumana e seletiva se não assumirmos estes corpos como Deus assumiu. Nós nunca diremos basta à opção do Estado que insiste em manter a paz, intensificando o controle pelas armas, única e exclusivamente, sem assumir os corpos de tantas vítimas deixadas pelo caminho. A equidade não chegou ao Eduardo de Jesus, à Cláudia Ferreira, à menina Eduarda, aos cinco meninos de Costa Barros, aos 12 jovens de Cabula, aos 9 sem-terra no Mato Grosso, porque a violência chegou antes, se instalou ali, foi gestada ali e Estado e sociedade a mantiveram contida ali. E não assumimos estes corpos, sempre pobres, sempre negros.

Então talvez a equidade deve ser mesmo abordada no Brasil a partir dos rostos. Encarnada em um dos seus rostos. E um dos seus rostos certamente é a justiça racial. Outro é a justiça econômica, outro é a justiça de gênero. E os melhores lugares para que essas abordagens sejam feitas não são nos congressos que realizamos, mas no cotidiano das igrejas locais em que atuamos e colaboramos. Mas há uma peculiaridade nessa justiça racial, na medida em que ela sequer está sendo pautada, talvez porque a sociedade brasileira quer distância de olhar a questão racial nos olhos. As igrejas bem mais. Talvez pelo constrangimento e desconforto que o problema suscita, além do racismo ser um problema que nunca vem sozinho, mas que atravessa toda uma estrutura de desigualdade. Minha provocação é pelo aprofundamento do espírito às superficialidades das desigualdades e das violências que interditam a Equidade.

Sei que seguimos na busca pela Equidade, mas sigamos sem perder de vista nenhum dos seus rostos. Sigamos alvoroçando ou revolucionando o mundo, como foram acusados Paulo e Silas no livro de Atos.

E o mundo, ao que parece, não será alvoroçado apenas pelos clamores ensaiados e transmitidos pela Mídia Ninja. O mundo será alvoraçado pela adesão e pela exposição ao desconforto da crítica escatológica radical aos desdobramentos dos dilemas das micro pautas, as muitas mortes, às diversas identidades ameaçadas e silenciadas e, ao enfrentamento aos demônios reais que operam a partir do Estado, do mercado, da lei e da religião, dos quais o racismo e a violência parecem ser os principais.

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