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"Onde houver desigualdade haverá opressores e oprimidos"

Palestra de Paul Freston durante o Fórum Miquéias Global

“Onde houver desigualdade haverá opressores e oprimidos”

O movimento da Missão Integral ganhou um novo fôlego no Brasil. É que foi oficialmente lançada no nosso país a Rede Miquéias (ou Miquéias Global). O evento ocorreu nos dias 15 e 16 de julho na Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte (MG) e reuniu 95 líderes de igrejas, redes e organizações cristãs. Confira abaixo trechos da reflexão feita pelo sociólogo Paul Freston durante o painel “Evangélicos e a conjuntura política: realidade & perspectivas”.

Saber como se comportar é mais importante do que o que pensar e o que fazer. Eu digo isso porque me parece que o estado natural da comunidade cristã é o pluralismo político. Só não existe o pluralismo político numa comunidade cristã quando você tem alguma coisa reprimindo. Mas o normal é que as igrejas estejam divididas politicamente e a partir desta constatação dessa naturalidade deste pluralismo é fundamental que a gente saiba conviver e debater de forma cristã. Saiba concordar e discordar com seriedade e convicção, porém, sem se excomungar mutuamente.

Eu digo isso porque me parece que o cristianismo é uma religião que se caracteriza pelo que eu chamo de um certo recato político, uma certa hesitação diante do fato político, um certo não-dogmatismo político.A fé cristã, pela sua natureza, se presta a um certo não-dogmatismo político e há várias razões pra isso. O fato de que as bases da nossa fé são livros escritos há muito tempo em outros mundos, em outros contextos políticos, nenhum dos quais se parece muito com o nosso contexto. A ponte entre esses mundos e o nosso é muito longa e por ser muito longa nós não podemos tirar receitas tão estreitas, infalíveis e detalhadas na política. Princípios gerais sim, receitas, plataformas, não.

Além do que a política é a arte do possível. É perfeitamente possível que dois cristãos que tiram basicamente as mesmas conclusões e princípios políticos a partir da revelação bíblica, mesmo assim  discordem radicalmente quanto aquilo que é possível fazer hoje no Brasil. Como a política sempre tem a ver com o aqui e o agora haverá discordâncias sobre aquilo que um julga possível e outro julga impossível ou muito difícil e me parece que a politização excessiva da identidade cristã, seja pelo lado político que for, é sempre desastrosa. Desastrosa para a política, mas acima de tudo, desastrosa para a fé. É idólatra porque ao fazer isso estamos colocando questões penúltimas no mesmo nível das questões últimas da revelação. Estamos colocando nossas opiniões políticas relativas no nível absoluto em comparação com aquilo que a gente acredita a respeito de Cristo.

Então é sempre ruim para a política, mas acima de tudo ruim para a fé quando se coloca as opiniões e debates políticos, por mais ferrenhos que sejam, no mesmo nível de convicção e dogmatismo que usamos para falar das doutrinas básicas da fé.

Uma outra coisa que eu tenho dito tem a ver com a questão da convicção. Não é à toa que não só cristãos, mas pessoas não cristãs, que entendem pouco de política e que têm uma dificuldade para entender e se interessar por questões políticas latu sensu sejam aliciadas, levadas a se envolver politicamente por via da questão da corrupção. Eu acho que dá pra entender o porquê disso. Porque a corrupção se apresenta como uma questão política aparentemente fácil de entender pela transferência de valores morais pessoais à esfera pública. É possível falar disso transferindo valores morais que a gente conhece na vida pessoal de uma maneira que não é possível quando se trata, por exemplo, de questões econômicas. E eu diria que políticos espertos sabem disso, inclusive, evidentemente, políticos evangélicos. Eles sabem muito bem que a questão da indignação com a corrupção é uma maneira de mobilizar os evangélicos para a atuação política. Mas me parece que a visão cristã da corrupção é muito mais profunda do que isso. Em primeiro lugar a questão da natureza radical do pecado. Me parece sempre que os evangélicos, os cristãos, são os que menos deveriam se espantar com a questão da corrupção. Porque a nossa antropologia, a nossa visão do ser humano, deveria nos preparar para isso.

O surpreendente não é que haja corrupção, é que não haja mais. É que haja forças contrárias, é que haja limitação nisso. E a nossa visão bíblica é que o pecado afeta todos os indivíduos e todos os grupos e todas as instituições. Isso significa que não há messias políticos, não há grupos isentos dos efeitos generalizados do pecado e não há instituições capazes de se manter alheias à este efeito. Esta é a primeira questão da visão bíblica da corrupção.

E o segundo aspecto é o seguinte: a bíblia sempre apresenta uma visão equilibrada entre renovação individual e renovação institucional. Por exemplo quando Deus tira o povo do Egito, de um lado você tem a renovação institucional através de leis e ao mesmo tempo você tem a questão da renovação individual através da espera para entrar na terra. E assim por diante ao longo da renovação bíblica. Agora um outro aspecto disso, dessa comunhão universal humana no pecado, é que justamente essa ideia, essa visão antropológica cristã, é um dos principais argumentos pela preocupação bíblica política com as gritantes desigualdades sociais.

A fé cristã é realista: onde houver desigualdade haverá opressores e oprimidos. A opressão decorre da possibilidade de oprimir. E quanto maior a possibilidade de oprimir, maior será a opressão. Esse é o estado natural das coisas. Se há alguma exceção a isso, é pura graça.

Por isso, amar ao próximo inclui o esforço para enfraquecer as estruturas desiguais que engendram a opressão. Inclusive, é por isso que temos que reconhecer que o combate à corrupção é uma causa política que mobiliza muito mais a classe média do que as camadas mais pobres. Não que elas não sejam capazes de entender que a corrupção é ruim, mas pra elas está mais do que claro que há outras mazelas ainda piores do que a corrupção política e que às vezes o combate à corrupção serve para mascarar o combate a estas coisas.

Evidentemente qualquer melhora será apenas temporária se não houver reformas políticas, sobretudo dos sistemas eleitoral e partidário. O atual sistema eleitoral é uma loucura, é um convite à corrupção em todas as instâncias, em todos os momentos. No momento da campanha, no momento do exercício dos mandatos parlamentares e executivos. Em todos os momentos o sistema incentiva desnecessariamente a corrupção.

Uma outra coisa que eu chamo de central nesse momento é distinguir entre um ideal e seu portador. O que nos decepcionou? O nosso ideal ou o portador temporário do nosso ideal? No mundo eclesiástico é a primeira coisa que ensinamos a um novo convertido. A importância de não confundir a fé com uma igreja portadora daquela fé. A igreja como instituição humana em algum momento, obviamente, vai decepcionar. Mas se jogamos fora a fé por causa disso é porque nunca compreendemos realmente a fé. A mesma coisa vale no campo político. Podemos ter um ideal político e acreditar em determinado grupo que se diz portador deste ideal. Este grupo acaba decepcionando. O que fazer? Claro que existem utopias totalmente irrealistas que vão decepcionar sempre porque são irrealizáveis. Daí vão continuar decepcionando até a gente concluir que não é por aí. Mas se tivermos um ideal político mais sensato, mais capaz de realização, podemos mesmo assim sofrer uma decepção com determinado portador, mas sem jogar fora o ideal.

Em um momento como este eu procuro não abrir mão da ética cristã ao falar da política. Procuro não insultar ninguém, não excomungar ninguém, não dizer que só porque fulano pensa politicamente diferente de mim ele não é evangélico, bom cristão, está traindo a fé. Eu procuro não deturpar as razões da pessoa que pensa diferente de mim. Mas também, e aí que está de certa forma a tensão, também procuro não abrir mão do que julgo serem ideais políticos perfeitamente compatíveis com a bíblia e aliás, recomendados pela bíblia.

Como por exemplo a justiça e a solidariedade, a priorização dos mais fracos e necessitados para diminuir a desigualdade, que aliás, só vem aumentando no nosso século XXI, o valor fundamental da democracia como reflexo da antropologia cristã.

A propensão humana para o mal torna a democracia necessária. E a propensão humana para o bem torna a democracia possível. É importante manter essa visão dupla da antropologia cristã, a propensão para o mal e para o bem. O valor da democracia como reflexo da antropologia cristã e também do caráter de Deus expresso na maneira em que Deus trata a humanidade desde o começo e a maneira em que ele trata a humanidade reconstruída em Cristo (Gálatas 3:28). Essa frase de certa forma faz eco ao primeiro capítulo de Gênesis quando fala da criação do ser humano à imagem de Deus. E aí se preocupa em dizer, especificamente, homem e mulher são criados à imagem de Deus. E aí muito tempo Depois Paulo repete que não há homem nem mulher, mas acrescenta escravo e livre, judeu e grego.

Interessante isso talvez porque a divisão de gênero na espécie humana vem desde sempre, mas a divisão étnica e de classe social é uma criação histórica. E por isso é necessário acrescentar já. Não deixa de ser interessante que a democracia grega era uma democracia que excluía justamente estas três categorias: a mulher, o estrangeiro e o não-livre. Então Paulo coincidentemente ou não diz que em Cristo estas três exclusões não valem. Romanos 12 e 1 Coríntios 12 falam das distribuições dos dons do espírito. São listas quase totalmente distintas, no entanto nos dois textos o enfoque é o mesmo. A questão de que Deus não omite ninguém. Deus distribui seus dons de forma que ninguém é omitido e ninguém é superior por causa deste ou daquele dom. E ninguém possui todos os dons em si, ninguém se basta a si mesmo. A maneira de Deus distribuir os dons do Espírito Santo na comunidade redimida testemunha este enfoque democrático de Deus.

Outra coisa seria a rejeição da idolatria, tanto de estado como de mercado como retratada em Marcos 2:27 quando Jesus fala que o ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado para o ser humano. Este é um princípio básico que se pode usar substituindo qualquer outra coisa no lugar do sábado. Durante muito tempo em muitos lugares do mundo era necessário repetir em alto e em bom tom que o ser humano não foi feito para o estado, mas sim o estado para o ser humano. No nosso mundo de hoje, a não ser talvez na Coréia do Norte, é mais necessário ainda dizer “o ser humano não foi feito para o mercado, mas o mercado para o ser humano”.

A instituições humanas têm que estar a serviço do ser humano e não vice-versa. E quando se retruca que o mercado funciona assim e não há o que fazer, estamos na presença da pura idolatria. Pra mim ser cristão evangélico significa acima de tudo a vontade de ser profundamente bíblico e ser bíblico significa, inclusive, estar atento a certos ideais na política. Significa não se curvar diante de modismos.

A história dá muitas voltas. Muitas vezes uma minoria execrada por seus contemporâneos de hoje acaba se tornando indispensável na geração seguinte para salvar a imagem desgastada da comunidade. Quem subordina sua leitura da fé a consensos sociais passageiros descobre um dia que a sua leitura ficou estranhamente datada. Por isso eu afirmo a importância do pluralismo político cristão em que alguns serão mais pra cá, outros mais pra lá, mas sem desprezar ou excomungar aqueles que discordam politicamente de mim.

Paul Freston: inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor do programa de pós-graduação em ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos e, desde 2003, professor catedrático de sociologia no Calvin College, nos Estados Unidos. 

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