| | | 55 31 3568-1401

Quando o coração de uma nação é partido

Postado no blog da Tearfund no dia 08 de setembro de 2015 por Katherine Maxwell-Rose

Navegando na onda da Compaixão

Histórias e imagens de sofrimento desencadeiam uma onda de choque e compaixão. Soa familiar? Não é a primeira vez que isso acontece. Neste artigo, Katherine Maxwell-Rose pergunta como devemos reagir quando há uma onda de compaixão pública.

Foi uma crise de refugiados que deu origem à Tearfund.

Era 1960; uma onda de guerras e desastres tirou de sua terra natal 40 milhões de pessoas. Tearfund nasceu de uma reação espontânea a esse sofrimento. Os cristãos começaram a enviar dinheiro, roupas e comida de bebês para a Aliança Evangélica (AE). A AE não estava envolvida em qualquer trabalho de assistência ou de desenvolvimento, mas a generosidade espontânea de seus apoiadores abriu o caminho.Em 1968 Tearfund havia sido criada para responder a situações como a guerra civil na Nigéria, fome, inundações na Jordânia e um terremoto devastador na Pérsia, bem como em muitos outros países. Esse movimento espontâneo de generosidade mudou a forma como a ação social era feita.

As fotografias de duas crianças mortas em uma praia na Turquia na semana passada foram profundamente chocantes. Eles se juntaram a muitas outras imagens horríveis: homens e mulheres se afogando no mar, multidões dormindo do lado de fora da estação ferroviária de Budapeste ou aquelas figuras em Calais caminhando no escuro, arriscando suas vidas para saltar sobre as costas dos caminhões e trens. Conflitos, alterações climáticas e a enorme pobreza estão forçando as pessoas a deixarem suas terras natais. O número de imigrantes nunca foi tão alto  desde a Segunda Guerra Mundial. Cada imagem veiculada cutuca um pouco mais fundo nossas consciências.

Não é a primeira vez que imagens como estas causam um choque coletivo. Lembreme-nos da pequena Kim Puc, de apenas 9 anos, fotografada correndo nua após suas roupas terem sido queimadas quando seu vilarejo no Vietnã do Sul foi bombardeado em 1972. Ou Agim Shala atravessando uma cerca de arame farpado para alcançar o campo de refugiados dos seus avós em  Kosovo.

Quando olhamos para o mundo através da vulnerabilidade e fragilidade das crianças, como o próprio Jesus apontou, não podemos virar as costas. É através delas que devemos entender o que a vinda do Reino significa. A Bíblia  também nos mostra Jesus sendo movido pela compaixão. Suas curas e milagres são muitas vezes uma resposta compulsiva para aliviar o sofrimento de alguém:

Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!” (Marcos 1:41)

Ao ver chorando Maria e os judeus que a acompanhavam, Jesus agitou-se no espírito e perturbou-se. (João 11:33)

Às vezes precisamos de algo que seja chocante a ponto de nos sacudir da dormência e da apatia. Eu gostaria que não precisássemos, bem como eu gostaria que a foto nunca tivesse sido tirada. Mas, acima de tudo, eu queria que essas crianças não tivessem sido forçadas a enfrentar essas situações de perigo.Foram estas imagens de Aylan e Ghalib Kurdi que acabaram com o que ainda havia de resistência em muitos. A dor era esmagadora. Eu nunca vi tantas pessoas em mídias sociais unidas na raiva e na compaixão em torno de uma questão.

Imagens como estas podem nos abalar. Eles nos enervam e nos perturbam, mas evitá-las seria pior. Às vezes, precisamos de algo que machuque muito e que nos compele a agir e a ter esperança. Se os cristãos na década de 1960 não tivessem sentido a dor dos refugiados e de tudo o que estava sendo perdido, Tearfund poderia nunca ter nascido.

Há momentos em que uma cultura muda exatamente da forma como esperamos. No entanto, quando isso acontece, podemos ser pegos despreparados. Com hashtags como #Refugeeswelcome (bem-vindos, refugiados) e #generosityrevolution (revolução da generosidade) percebemos que algo na nação está mudando. Precisamos estar prontos quando as pessoas nos perguntarem o que podem fazer e quando a generosidade começar a fluir em abundância. Podemos ouvir este movimento levantando-se, aprender e liderar a partir dele. A pressão sobre os poderes políticos precisa ser mantida e mais ainda pode ser feito. Vamos abençoar e unir forças àqueles que oferecem hospitalidade em suas casas e comunidades. Este pode ser um momento em que vamos olhar para trás no futuro a ponto de percebemos que as coisas não podem voltar a ser como eram. Vamos imaginar algo melhor.

Os objetivos da Tearfund sempre foram audaciosos. Até mesmo irreais. Mas os caminhos proféticos sempre o são.  Em quase 50 anos de trabalho da Tearfund já vimos milhões de pessoas saírem da pobreza. Tudo começou com essa onda de generosidade espontânea na década de 1960. Ela nos ensinou a não ter medo de sonhar grande. Agora, quando outra onda semelhante de misericórdia varre toda a Europa, precisamos estar prontos para responder. Afinal, quem sabe o que vamos perder se não o fizermos?

Leave a Reply