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Moradores do Bairro Coqueiral, no Recife, transformam lixo em lucro

Moradores do Bairro Coqueiral, no Recife, transformam lixo em lucro

Maria das Graças passou a recolher suas garrafas plásticas depois de ver o cadáver de sua vizinha boiando junto com a poluição que causou as inundações mortais. Atualmente ela armazena as garrafas pet na porta da frente da pequena casa de apenas um cômodo, localizada nas margens cobertas de lixo do rio Tejipió, no nordeste do Brasil.Depois de juntar algumas centenas de garrafas Maria das Graças as transporta até o depósito local, onde um coletor de lixo lhe paga R$2,00 por 50 garrafas de plástico. Ela não faz isso apenas pelo dinheiro, sua principal motivação é impedir que a maré de plástico inunde sua comunidade.

Todos os dias, Maria das Graças e outros moradores de Coqueiral, um bairro pobre da cidade do Recife, sentem na pele o impacto da mega produção e do descarte inadequado do plástico ao redor do mundo. Para eles a poluição é visível nas águas do rio que outrora fluíam livremente pela área. Cinquenta anos atrás, quando Rildo Wandray era menino, ele pulava no Tejipió e nadava, enquanto seus amigos pescavam ao lado dele. Hoje o rio está estagnado, obstruído em todos os afluentes por uma maré de lixo plástico, farrafas de Coca-Cola e Fanta, recipientes de água e vários outros tipos de embalagens.

Globalmente, cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em comunidades em que não há coleta de lixo. Embora a atenção internacional tenha focalizado recentemente a crise do lixo marinho, o impacto devastador dos resíduos plásticos nos países mais pobres do mundo não é menos destrutivo, causando inundações, doenças e centenas de milhares de mortes prematuras por gases tóxicos oriundos da queima de resíduos.

No Recife, o lixo plástico está exacerbando as inundações já devastadoras da elevação do nível do mar causada pela mudança climática. E aqueles que vivem ao redor do Tejipió estão cansados ​​de esperar que o governo aja. Para Maria das Graças, o ponto de inflexão veio quando a inundação tirou a vida de uma de suas vizinhas. “Eu estava presa dentro da minha casa com meu filho”, disse ela.

Não havia nada que pudéssemos fazer, a água subiu e não conseguimos sair. Eu olhei para fora e vi um corpo passar flutuando. Ela estava de bruços, eu podia ver o cabelo. Naquela noite, a inundação quase me levou também. Desde então passei a coletar minhas garrafas, pois queria tentar fazer alguma coisa para reduzir o lixo que entrava no rio. ”

Organizados e apoiados pela igreja batista local através do projeto “Rio Limpo, Cidade Saudável”, do Instituto Solidare com o apoio da ONG Tearfund,  as comunidades locais estão se mobilizando por meio de protestos de rua, reuniões públicas e campanhas de conscientização. Paralelamente tentam construir uma rede de empreendedores que possam ganhar a vida recolhendo os resíduos e transformando-os em produtos comercializáveis.

Na opinião do vice-presidente do Instituto Solidare Evandro Alves, os mais pobres do mundo estão sofrendo mais com a crise dos resíduos plásticos. A situação aqui nesta comunidade, onde a vida já é incrivelmente difícil, tem piorado”, disse ele. “Estamos vendo mais e mais plásticos sendo usados ​​e jogados fora, e isso acaba aqui na comunidade deles. Então decidimos nos mobilizar”. O movimento em Coqueiral, acredita Alves, poderia ser replicado em todo o mundo em desenvolvimento; tomando a idéia de uma economia circular e localizando-a para capacitar as pessoas a pressionarem pela ação do governo, mas também para aproveitar as oportunidades que o desperdício cria.

O desperdício é um problema, mas também é uma oportunidade para as pessoas ganharem a vida, criando uma economia circular para si mesmas”, disse ele. “Isso poderia ser transformador e melhorar a qualidade de vida das pessoas nas áreas mais pobres das maiores cidades. Esta é uma batalha para todos e todos precisam fazer parte disso. Entendemos que isso não é uma solução curta, é uma luta longa ”.

Matéria originalmente publicada no periódico britânico The Guardian, no dia 12/04/2018. Trecho traduzido livremente pela assessoria de comunicação de Tearfund Brasil. Para ler a íntegra original em inglês, clique aqui. 

Leia mais sobre o projeto Rio limpo, cidade saudável aqui. 

 

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