| | | 55 31 3568-1401

Reflexões Miquéias

Palestra ministrada pelo pastor Valdir Steuernagel durante o Fórum Miquéias Global, realizado nos dias 15 a 16 de julho em Belo Horizonte.

“A missão integral é escuta e olhar” – Valdir Steuernagel

13690958_617175825114247_8329772373710883584_oEntre os dias 15 e 16 de julho foi realizado o lançamento da Rede Miquéias Global no Brasil. O evento, que contou com 95 lideranças de todo o país, promoveu debates profícuos e reflexões sobre o que caracteriza a Missão Integral. Temos veiculado em nossos canais de comunicação  as palestras, exposições bíblicas e meditações proferidas durante o fórum Míquéias. Dando prosseguimento à esta série, compartilhamos abaixo trechos da palestra do pastor Valdir Steuernagel  intitulada “Novas Perspectivas da Missão integral”.

Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.” Miquéias 6:8

O ponto de partida da missão integral é a compreensão de que a revelação de Deus é viva, atuante e eficaz, como expresso na Palavra de Deus. É regressar à bíblia e ao Senhor que reina através dela. É questionar nossas tradições evangélicas à luz da revelação escrita. É colocar todas as atividades da igreja sob o juízo da palavra do Deus vivo. É obedecer as claras demandas da palavra de Deus para que a mensagem de Jesus Cristo seja anunciada a todos, conclamando-os a serem seus discípulos e que o sejam dentro da complexa realidade social, política e econômica da América Latina, uma comunidade que expressa o espírito de justiça, misericórdia e serviço implicados pelo Evangelho. Assim, o ponto de partida das conversas em torno da Missão Integral foi o encontro com as escrituras, no pressuposto de que essa escritura fala sempre de forma viva e eficaz e fala para dentro da nossa realidade e do nosso contexto.

A segunda coluna importante nessa caminhada foi a constatação de que a fé é fundamentalmente missionária, ao mesmo tempo em que se afirmava que a missão não é apenas primordial na vida da igreja, mas comunitária. Na missão a igreja se descobre e se põe no seu caminho e para tanto dá os passos além do seu próprio ser e além do seu próprio ambiente para dentro daquela humanidade que está aprisionada a tantas crenças falsas, obstinadas e impotentes. A igreja se descobre na missão. Mas uma das descobertas importantes foi de que essa missão da igreja não é clerical, não é voltada para o pastorado, para o missionário clássico, mas uma vocação de todo o povo de Deus. A missão é de todo o povo de Deus e todo o povo de Deus é vocacionado para a missão. Por isso a teologia que se fazia era a teologia do caminho na comunidade que abraçava as diferentes vocações que se viviam nessa comunidade. É assim que a missão é afirmada. É a missão da comunidade, é a missão no sacerdócio geral de todos os crentes.A terceira estaca é a redescoberta de que essa missão nasce do encontro com Jesus. E nessa descoberta se encontrou o Jesus histórico e se redescobriu a centralidade da teologia da encarnação.

Por isso a missão deve ser vista como a proclamação do Reino de Deus como Reino de Cristo a cada nova época e em cada novo tempo. A missão da igreja está à serviço do Reino de Deus. E o Reino de Deus precisa e quer ser sinalizado no exercício missionário da igreja. Por isso é que precisa ser uma missão comunitária e uma missão que abraça as diferentes expressões da vida e vocação humana.Essas diferentes colunas ou estacas foram fundamentais na caminhada da missão integral. O ponto de partida é a revelação: a fé que nos é revelada é uma fé missionária. Essa fé missionária recebe de Jesus a sua convocatória e tem em Jesus o seu modelo. Esse desafio de seguir a Jesus nos leva ao encontro da realidade e da mensagem do Reino de Deus. Daí que dessa caminhada nessa encruzilhada da América Latina nasce essa expressão da missão integral.

A missão integral quer apontar para a Missio Dei, para o fato de que a missão fundamental é a missão de Deus, pois não há outra forma de mergulhar na missão senão nesta missão que pertence a Deus e na qual nós temos o privilégio de participar. Ao sermos aspirados para dentro desta missão de Deus percebemos que em última análise missão é doxologia. Missão é adoração e toda a obediência que se articula na encruzilhada dos nossos caminhos é adoração à Deus.

A fé cristã é fascinantemente trinitária, pois é o Deus Triúno que nos chama para dentro da sua realidade fenomenal. E essa fé trinitária é cristologicamente apropriada. Então é através do evento cristológico que nós enxergamos a Trindade. Esse encontro com o Cristo precisa da Teologia da Encarnação porque sem ela a própria Teologia da Ressurreição não tem o sentido que adquire na encruzilhada. Esse evento cristológico nos é compartilhado pelas escrituras de uma forma contextualizada. E essa palavra nos leva a descobrir a realidade da vida.

Essa fé é fundamentalmente missionária porque é uma fé em movimento e de contínuas conversas nas encruzilhadas da vida. Uma fé que é seguimento a Jesus e que é pronunciada nas encruzilhadas da vida passa a ser profética. Porque ela afirma o Reino de Deus, a justiça de Deus, denuncia a injustiça idolátrica e alimenta sonhos que geram mudanças. E essas mudanças precisam apontar para o Reino. O Reino de Deus presente entre nós em Jesus, expresso na comunidade de fé e objeto da nossa oração e da nossa esperança.

A missão integral é fundamentalmente escuta e olhar, um jeito de escutar e um jeito de olhar. Deus pronuncia uma palavra e a palavra que Deus pronuncia na encruzilhada é uma palavra nova, de identidade, é uma palavra de comunidade, e é uma palavra de esperança. Por isso na missão integral a gente não cansa de ouvir a palavra porque sem ela nós estamos perdidos na encruzilhada.Olhando para a nossa realidade da caminhada da missão integral na América Latina eu diria que essa escuta era muito cerebral, muito lógica e muito masculina. Mas como a missão integral é uma caminhada, temos um universo enorme para nos encontrarmos com a revelação. Não com essa palavra que nos é transmitida como um discurso fechado e proposicional.

Quando a revelação de Deus na palavra nos envolve por inteiro e nos convida para a poesia, para a dança, para o encanto, nos convida para as escutas que se dão nos diferentes universos da nossa realidade individual e coletiva. A palavra de Deus é muito rica, muito bonita. Por isso ela é revelação e por isso precisamos dela na encruzilhada.A missão integral é essa escuta desse Deus que canta, desse Deus que dança, desse Deus que faz poesia, desse Deus que encanta pelo jeito que Ele fala, pelo tom de voz, pelos olhos que falam, pelos braços que são longos. Essa é a palavra que nos quer visitar, se revelar e nos quer abraçar na encruzilhada do nosso tempo e da nossa época. Por isso precisamos sempre nos voltar a ela.

Mas essa palavra que nos vem da parte de Deus é uma palavra que abre os nossos olhos e os nossos ouvidos para essa encruzilhada e não o contrário. Ela é uma palavra que abre ouvidos e olhos pra que a gente veja, escute sempre de novo. Escute a realidade, escute o nosso entorno. Por isso a missão integral não pode repetir discurso porque ela precisa nascer do encontro com cada escuta e com cada olhar e as escutas e os olhares de cada contexto, de cada local, de cada geração são diferentes.

Agora essa escuta que nós fazemos não é neutra, ela tem um viés. E o viés da nossa escuta é para a encarnação e não para a descriminação ou para o isolamento. Ela é uma escuta especial para a encarnação voltada para as crianças, para os pobres, para os vulneráveis. Ou seja, ela é uma escuta que discerne o gemido do mundo, e isso só é possível através da revelação.

A teologia da encarnação nos leva ao pertencimento: somos vocacionados para sermos peregrinos no mundo no qual vivemos. O já e o ainda não do próprio Reino de Deus. E as outras duas categorias são de que nós escutamos com compaixão no sonho com a justiça. Nunca é uma compaixão separada da justiça, mas também não é uma justiça sem compaixão.

Se a missão integral é escuta e olhar, ela é estilo de vida, um jeito de viver. Na história do movimento de Lausanne se procurou expressar isso no começo sobre a inter-relação entre a responsabilidade social e evangelismo. O movimento propõe que a gente adote um estilo de vida simples no mundo em que vivemos. Procuramos articular esse estilo de vida que abrace a vida, a palavra, a ação e o sinal.

Portanto, creio que algumas pautas são fundamentais para nós:

  • Deixarmo-nos cativar pelo Jesus que liberta;
  • Participarmos do nascimento de uma nova declaração de amor onde a fecundidade sobrepassa a produção, a relação está acima da estrutura e o significado passa pela relevância relacional

Neste contexto, é preciso reaprender a dizer não à injustiça e readquirir a santidade da ira diante da desigualdade e da violência e participar na busca pelo descobrimento de uma nova semente política. Nunca esquecendo o pobre, o pequeno, o enfermo, o explorado e o excluído. Sempre reverenciando o outro e se encontrando na vulnerabilidade humana mútua, celebrando as pequenas coisas e abraçando a simplicidade da vida. Orando por portas abertas e participando do sonho pelo Reino de Deus.

*Valdir Steuernagel é pastor na Comunidade do Redentor, em Curitiba (PR). Faz parte da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, da Aliança Cristã Evangélica Mundial e da Visão Mundial.

Leia também:

“Onde houver desigualdade haverá opressores e oprimidos”  [Paul Freston]

“Não há igreja bonita que subsista a uma vida que não traz o testemunho do Cristo encarnado” [Pastor José Marcos]

Lançamento de Miquéias no Brasil traz novo fôlego para a Missão Integral

 

 

Leave a Reply