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Luiz Felipe Xavier: "A ansiedade e a ganância são dois lados da mesma moeda"

Luiz Felipe Xavier: “A ansiedade e a ganância são dois lados da mesma moeda”

Entre os dias 03 a 06 de outubro de 2017 aconteceu o Encontro de Parceiros Nacionais (EP2017) da Tearfund Brasil. Durante três manhãs do EP2017 a exposição bíblica ficou à cargo do pastor Luíz Felipe Xavier, da Igreja Batista da Redenção de Belo Horizonte. À luz do tema “O Jubileu do ponto vista religioso, econômico, social, politico e religioso”, e com base nos textos de Levítico 25 e Lucas 4:14-25, Luiz Felipe falou na manhã do dia 05 de outubro sobre o perigo da ganância e sobre a vida que realmente importa aos olhos de Deus. Confira abaixo a íntegra da mensagem. 

O ministério da saúde espiritual adverte…

Campina Grande, 05 de outubro de 2017

Luiz Felipe Xavier

Relação entre Levítico 25 e Lucas 4:14-21 – roteiro de leitura do terceiro Evangelho. O nosso texto de hoje é Lucas 12:13-21. Esse texto possui a seguinte estrutura: Narrativa inicial (diálogo sobre herança e anúncio do princípio espiritual). Parábola (estória de um rico insensato e ilustração do princípio espiritual). Declaração final (conclusão de Jesus e aprofundamento do princípio espiritual).

A Parábola do Rico Insensato é a única no Novo Testamento em que Deus aparece como um dos personagens. Através dessa parábola, Jesus nos ensina que precisamos ficar de sobreaviso contra todo tipo de ganância, pois a nossa vida não consiste na abundância dos nossos bens. Antes de lermos o texto, uma confissão, uma informação e um esclarecimento:

Confissão: Eu confesso que, muitas vezes, me identifico com o rico insensato da parábola. Não raramente, eu encontro a ganância no meu coração; eu me vejo buscando segurança e bem estar nos bens materiais.

Informação: Como o nosso texto de hoje toca na questão da riqueza, é importante entendermos a definição das classes sociais no Brasil. Mais do que isso, é importante sabermos onde nós nos encontramos nessa definição.

ESCLARECIMENTO: Precisamos somar as rendas permanentes de cada pessoa da nossa família e conferir em que classe a nossa família se encontra; a classe da nossa família será a nossa classe. Começando de baixo para cima:

Classe E – Renda familiar até R$ 1.254,00.

Classe D – Renda familiar de R$ 1.255,00 a R$ 2.004,00.

Classe C – Renda familiar de R$ 2.005,00 a R$ 8.640,00.

Classe B – Renda familiar de R$ 8.641,00 a R$ 11.261,00.

Classe A – Renda familiar acima de R$ 11.262,00.

Fonte: CPS/Ibre/FGV (jan. 2014).

           

Esclarecimento: Embora o nosso texto de hoje seja a parábola do rico insensato, ele não é um texto exclusivamente para os ricos. Ele é um texto que adverte a todos sobre o perigo da ganância. Deus deseja que desenvolvamos uma relação saudável com os bens materiais. Para tal, precisamos considerar 3 advertências de Jesus.

Primeira advertência: A ganância é uma enfermidade espiritual (13-15)

Jesus está cercado por uma multidão. No meio dessa multidão, alguém diz: “Mestre, diz a meu irmão que divida a herança comigo”. Espera-se de um mestre conhecimento da lei e pareceres legais. E Jesus responde: “Homem, quem me designou juiz ou árbitro [melhor seria “partidor”, como na ARA] entre vocês?”. Espera-se do juiz uma sentença e do partidor a execução dessa sentença. Voltando-se para os demais presentes, Jesus declara: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Aqui está o princípio espiritual que será ilustrado pela Parábola do Rico Insensato: É preciso ficar de sobreaviso contra todo tipo de ganância.

A ganância é o desejo ávido e insaciável de ter sempre mais. Assim, a advertência de Jesus é a seguinte: Tomem cuidado! Afastem-se ou protejam-se de todo tipo de ganância. A ganância é uma enfermidade espiritual terrível. Isso porque a expressão “Tomem cuidado!” era utilizada no contexto dos cuidados médicos (por exemplo: cuidado com os leprosos). Aqui surge uma importante pergunta: Por que é necessário afastar-se ou proteger-se da ganância? A resposta de Jesus é muito clara: Porque a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens. Nessa resposta, a palavra traduzida por “vida” é zoe. Zoe é a vida real e genuína; a vida ativa e vigorosa; a vida devotada a Deus e abençoada por ele. Assim sendo, a vida que realmente importa não consiste na quantidade de bens que se acumula.

Uma vez que estamos em uma zona de epidemia de ganância, precisamos tomar muito cuidado.A mensagem do nosso entorno é: Trabalhe mais, ganhe mais, acumule mais, consuma mais e finalmente você será reconhecido como alguém bem sucedido. O problema é que se vivermos nesta pegada, jamais nos realizaremos e jamais nos pacificaremos. Isso porque de duas uma: Ou estaremos inquietos para adquirir coisas ou estaremos enjoados das coisas que já adquirimos. Mas a mensagem de Jesus é completamente diferente: A vida que realmente importa não consiste na quantidade de bens que você acumula.

Então, o nosso afastamento ou proteção em relação à ganância dependerá da acolhida dessa mensagem de Jesus em nosso coração. Nós podemos ouvi-la com os nossos ouvidos e entendê-la com a nossa mente, porém, ela só nos transformará de fato se a acolhermos em nosso coração. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos decidir a quem daremos razão: à mensagem do nosso entorno, que é ilusão e morte, ou à mensagem de Jesus, que é realidade e vida. Uma coisa é certa: Caso decidamos dar razão à mensagem de Jesus, experimentaremos a incompreensão do nosso entorno e careceremos de fortalecimento mútuo na comunhão dos irmãos.

Segunda advertência: A acumulação para si mesmo é o sinal dessa enfermidade (16-20)

Tendo anunciado o princípio espiritual, agora Jesus o ilustra. Para tal, ele lança mão da Parábola do Rico Insensato. Ele diz: “A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. “Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. “Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’”. Consideremos a breve estória que a parábola descreve:

A terra produz por si mesma.

O dono dessa terra é um homem rico.

Ele já tem e ainda terá mais do que o suficiente para viver.

A perspectiva de ter ainda mais lhe traz um problema.

O problema é o que fazer com o excedente.

As duas alternativas são acumular ou partilhar.

O homem rico faz opção de acumular.

A acumulação para si mesmo é o sinal da enfermidade. Ele quer proteger e desfrutar os seus bens; quer segurança e bem estar. Deus declara que a opção de acumular é uma expressão de loucura. É loucura porque o homem rico não tem domínio sobre a própria vida (psuche – fôlego de vida). Embora em nossas traduções não seja evidente, no texto original, Lucas brinca com as palavras de Jesus. Sobre isso, Kenneth Bailey comenta: “(…) aqui este homem rico, que acha que a sua euphoreo (abundância de bens) produzirá euphron (a vida boa), na realidade está aphron (sem mente, espírito e emoções). A sua fórmula para a boa vida é estupidez crassa.”

Quando acumulamos para nós mesmos riquezas, estamos em busca de segurança e de bem estar. Todavia, Jesus nos chama de loucos. É loucura confiarmos mais em nossos bens materiais do que em nosso Deus. É loucura pensarmos que, porque temos muitos recursos financeiros, podemos controlar o nosso futuro.

Terceira advertência: A partilha com o próximo é o tratamento dessa enfermidade (21)

Depois de anunciar e ilustrar o princípio espiritual, Jesus conclui com as seguintes palavras: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus”. Aqui Jesus aprofunda o princípio espiritual. Guardar para si riquezas nós já sabemos o que é. Agora, a pergunta é: O que é ser rico para com Deus? Jesus não explica o que é isso. Nós só descobrimos o que é ser rico para com Deus quando discernimos o contraste presente nessas palavras finais de Jesus. Ou seja, ser rico para com Deus é o oposto de acumular para si riquezas. Consequentemente, ser rico para com Deus é partilhar o que se tem com o seu próximo. A partilha com o próximo é o tratamento da enfermidade. Paradoxalmente, quem partilha é rico.

Ouvindo atentamente essas palavras de Jesus, descobrimos que a ansiedade e a ganância são dois lados da mesma moeda. Por ser alguém que deseja controlar o futuro, o ansioso dá lugar à ganância e acumula para si riquezas (isso é ilusão e loucura). Além disso, descobrimos que a fé e a generosidade também são dois lados de outra moeda. Por ser alguém que descansa no cuidado amoroso de Deus, o crente dá lugar à generosidade e partilha o que tem com o seu próximo (esta é a vida que realmente importa).

José Antonio Pagola comenta: “Esta crise [econômica] não é simplesmente mais uma crise. É um “sinal dos tempos” que devemos ler à luz do Evangelho. Não é difícil escutar a voz de Deus no fundo de nossa consciência: “Basta de tanta insensatez e de tanta insolidariedade cruel”. Nunca superaremos nossa crise econômica sem lutar por uma mudança profunda de nosso estilo de vida: precisamos viver de maneira mais austera, precisamos compartilhar mais nosso bem-estar.”. Portanto, todos nós precisamos responder: Qual tem sido o nosso projeto de vida? Estamos guardando para nós riquezas ou estamos sendo ricos para com Deus?

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“Quando o pecado, que gera a injustiça social, é perdoado, a consequência é justiça social” – Princípios para viver num mundo em crise econômico-social

EP 2017 aconteceu em Campina Grande entre os dias 03 e 06 de outubro

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