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Luiz Felipe Xavier: "Em vez de maximizar lucros, os discípulos de Cristo devem investir em pessoas"

Luiz Felipe Xavier: “Em vez de maximizar lucros, os discípulos de Cristo devem investir em pessoas”

Entre os dias 03 a 06 de outubro de 2017 aconteceu o Encontro de Parceiros Nacionais (EP2017) da Tearfund Brasil. Durante três manhãs do EP2017 a exposição bíblica ficou à cargo do pastor Luíz Felipe Xavier, da Igreja Batista da Redenção de Belo Horizonte. À luz do tema “O Jubileu do ponto vista religioso, econômico, social, politico e religioso”, e com base no texto de  Lucas 16:19-31, passagem bíblica em que se encontra a famosa parábola do Rico e do Lázaro, Luiz Felipe advertiu os presentes na manhã do dia 06 de outubro sobre o perigo de ignorarmos as necessidades do pobre e sobre como Deus lida com a injustiça. Confira abaixo a íntegra da mensagem. 

Transformando indiferença em compaixão

Campina Grande, 06 de outubro de 2017

Luiz Felipe Xavier

O nosso texto de hoje é Lucas 16:19-31, a Parábola do Rico e Lázaro. Tanto essa parábola quanto a do Rico Insensato encontram-se na viagem de Jesus da Galiléia à Judéia e retratam o conflito com os fariseus sobre o dinheiro. No contexto desse conflito, alguns detalhes se destacam:

  • Em Lucas 11:37-12:12, Jesus diz: “Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato, mas interiormente estão cheios de ganância e de maldade.” (v. 39). Como solução para a ganância e para a maldade, ele afirma: “Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? Mas deem o que está dentro do prato como esmola, e verão que tudo lhes ficará limpo.” (v. 40-41). Em seguida, Jesus anuncia sete “ais” contra os fariseus e peritos na lei, e faz sete advertências aos seus discípulos.
  • Em Lucas 12:13-21, em resposta a um homem, Jesus diz à multidão: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens.” (v. 15). Para ilustrar o que dissera, ele conta a Parábola do Rico Insensato, propondo como solução para a ganância o ser rico para com Deus. Ser rico para com Deus é partilhar o que se tem com o seu próximo, o oposto de acumular para si riquezas.
  • Em Lucas 12:22-34, dirigindo-se aos discípulos, Jesus afirma: “Não se preocupem com a própria vida, quanto ao que comer; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir.” (v. 22). Ao invés de se preocuparem com a vida e com o corpo, os discípulos devem buscar o Reino de Deus. Mais do que isso, devem vender o que têm e dar esmolas, acumulando para si mesmos tesouros nos céus.
  • Em Lucas 16:9-13, concluindo a Parábola do Administrador Astuto, Jesus diz: “Usem as riquezas deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas.” (v. 9).Em vez de maximizar lucros, os discípulos devem investir em pessoas, pois o que se faz aqui e agora tem implicações eternas. É exatamente por isso que os discípulos precisam decidir a quem servirão: a Deus ou ao Dinheiro (Mamom – o deus rival).
  • Em Lucas 16:14-15, antecedendo a Parábola do Rico e Lázaro, Lucas afirma: “Os fariseus, que amavam o dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam de Jesus.” (v. 14). A esses fariseus, Jesus diz: “Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece o coração de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus.” (v. 15). Pergunta: O que tem muito valor entre os homens e é detestável aos olhos de Deus? Resposta: O viver baseado no amor ao dinheiro. Logo, na viagem à Jerusalém, Jesus está ensinando que só há dois modos de vida possíveis: o viver baseado no amor ao dinheiro ou o viver baseado no amor a Deus. O primeiro é marcado por ansiedade, por ganância e, como veremos, por indiferença. O segundo é marcado por fé, por partilha e, como também veremos, por compaixão. A nós, resta a pergunta: Como temos vivido, amando a Deus ou ao Dinheiro? Os discípulos de Jesus são aqueles que vivem baseados no amor a Deus, transformando indiferença em compaixão. Para tal, eles precisam desenvolver três percepções.

Primeira percepção: Do necessitado (19-21)

A parábola começa com a descrição dos seus personagens principais: o rico e Lázaro. O rico se veste de púrpura e de linho fino, e vive no luxo todos os dias. Ele é coberto por vestes caríssimas e tem abundância de comida diariamente. O mendigo Lázaro é coberto de chagas e anseia comer o que cai da mesa do rico. Ele é coberto por feridas e tem escassez de comida. Três detalhes chamam a atenção na descrição dos personagens: Primeiro: Há um portão que separa o rico e Lázaro. Sobre esse texto, José Antonio Pagola comenta: “O olhar penetrante de Jesus está desmascarando a realidade. As classes mais poderosas e os estratos mais miseráveis parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.”.

Segundo: Lázaro é nomeado, mas o rico não. Em todas as parábolas de Jesus, o único personagem nomeado é Lázaro. O nome “Lázaro” significa “aquele a quem Deus ajuda”. Na parábola, vemos que o significado do nome Lázaro corresponde à situação vivida pelo personagem Lázaro.

Terceiro: Os cães se importam com Lázaro, porém, o rico não. Levando em consideração o contexto da época, Kenneth Bailey sugere que esses cães são os cães de guarda da casa do rico. Eles se alimentam do que cai da mesa do seu dono, Lázaro não. Mais do que isso, eles se importam com Lázaro, seu dono não. Aqui, o que mais nos interessa é que Jesus denuncia a indiferença do rico em relação a Lázaro, o necessitado que diariamente é colocado à sua porta e ele não vê.

Como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber o necessitado. Caso vivamos numa espécie de “bolha”, os pobres serão para nós invisíveis. Se a distância gera insensibilidade, a aproximação gera sensibilidade.

Segunda percepção: Da morte (22-23)

A parábola segue e chega o dia em que tanto o rico quanto Lázaro morrem. O mendigo Lázaro morre e é levado pelos anjos para junto de Abraão. O “seio de Abraão” é interpretado como o lugar pós-morte dos justos. Ou seja, estar junto de Abraão é estar em um lugar de bem-aventurança à espera da vindicação eterna. O texto não explica porque Lázaro vai para o “seio de Abraão”; ao que parece, é porque ele confia em Deus e na sua ajuda (ref. ao nome). O rico também morre, é sepultado e acha-se no Hades. O Hades é interpretado como o lugar pós-morte dos injustos. Isto é, estar no Hades é estar em um lugar de tormento à espera do juízo final. O texto também não explica porque o rico vai para o Hades; ao que parece, é porque ele confia em si mesmo e nas suas riquezas, e não se importa com o necessitado (ref. à ostentação e à indiferença).

Sobre a dimensão escatológica deste texto, Klyne Snodgrass, declara: “Seria tão insensato desprezar a relevância da parábola para a escatologia futura quanto pensar que ela apresenta uma ilustração do estado real das coisas. (…) Lucas claramente crê em uma vida consciente após a morte e em um julgamento futuro, o que torna mais provável a referência ao estado intermediário, mas ele não nos fornece informações suficientes para chegarmos a uma conclusão definitiva.”. Aqui, o que mais nos interessa é que, depois da morte inevitável, a barreira invisível que separava o rico e Lázaro torna-se um abismo intransponível e definitivo.

Como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber a morte. Não faz sentido vivermos acumulando e ostentando porque a morte é uma realidade inevitável. Além disso, a vida de acumulação e ostentação é autocentrada (centrada em nós mesmos), ao passo que vida que Jesus nos propõe é altercentrada (centrada no próximo). Assim, a nossa percepção da morte deve reorientar a nossa vida em direção ao necessitado. Quem são os necessitados que estão próximos a nós e como podemos ajudá-los efetivamente? Por exemplo: Os desempregados (empregados [segurança e bem estar] // desempregados [insegurança e empobrecimento]). Se a indiferença gera apatia, a solidariedade gera compaixão.

Terceira percepção: Da Palavra (24-31)

A parábola se encerra com um diálogo entre o rico e Abraão. Esse diálogo começa com o rico usando a expressão que é própria dos mendigos: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim (…)’ – nos lembramos da expressão de Bartimeu (Cf. Lc. 18:38-39). O rico deseja que Abraão mande Lázaro aliviar parte do seu sofrimento. Em resposta ao rico, Abraão anuncia uma inversão: Durante a vida, o rico recebeu coisas boas e Lázaro recebeu coisas más; agora, Lázaro está sendo consolado e o rico está em sofrimento. Pior do que isso, como já dito, há entre eles um abismo intransponível e definitivo.

Em resposta a Abraão, o rico expressa um novo desejo: Ele quer que Abraão mande Lázaro avisar seus irmãos sobre a sua situação para que eles se arrependam e tenham um destino diferente do seu. Notem: Mesmo em sofrimento, a fala do rico tem um tom arrogante e autocentrado. Em resposta ao rico, Abraão é incisivo: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. Tanto Moisés quanto os profetas são claríssimos em relação à compaixão que o povo de Deus deve ter com os necessitados. Por exemplo: Levítico 19:9-10: “Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês.

Isaías 58:6-7: “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo. Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Em resposta a Abraão, o rico insiste que se alguém ressuscitasse dos mortos e fosse até eles, eles se arrependeriam. Por fim, em resposta ao rico, Abraão reforça: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’. Aqui, o que mais nos interessa é que ouvir a Palavra é sinônimo de obedecer a Palavra.

Como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber a Palavra. Essa Palavra que é claríssima: Sejam compassivos com os necessitados. Todavia, a nossa tendência é levantar objeções que justifiquem a nossa desobediência. Em assim fazendo, resta-nos o arrependimento, o discernimento e a sabedoria. Se a apatia é expressão da desobediência, a compaixão é uma expressão de obediência.

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