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Dia da Consciência Negra - Um olhar sobre a Reforma: a perspectiva racial

Dia da Consciência Negra – Um olhar sobre a Reforma: a perspectiva racial

Um olhar sobre a Reforma: a perspectiva racial

Por Nilza Valéria Zacarias Nascimento, Camaçari (BA), 27/11/2017

Nos 500 anos da Reforma, que celebramos mundo afora em dezenas de eventos como esse, é natural que a gente olhe para Lutero. E olhe para as 95 teses fixadas na porta da Catedral. É natural que a gente diga que foi uma quebra, ou uma retomada de valores que a Igreja tinha perdido. É com alegria, que nós crentes, oriundos dessa Reforma, declaramos que Somente a Fé, Somente a Escritura, Somente a Graça e que Glória Somente a Deus.

Mas, quero convidar todo mundo aqui há olhar para outro lado da Reforma. Quero falar com vocês da Reforma Radical, do movimento anabatista. E o que isso tem a ver com a perspectiva racial? O que isso tem a ver com a cor que carrego na pele, o que isso tem a ver com essa igreja no Brasil, que nós aqui nesse espaço não representamos – majoritariamente constituída de pretos, de pobres, de mulheres. Uma igreja de mulheres pretas e de crianças pretas. O que isso tem a ver?

Para responder, vou propor que a gente volte nos anos de 1500. Enquanto o Brasil era, dentro de um acordo internacional, descoberto pelos portugueses, iniciando o martírio dos povos nativos que aqui habitavam (e outras mazelas), os camponeses alemães levavam uma vida difícil. O mundo não era um bom lugar em 1500, não era nem seguro, nem saudável. Uma família camponesa daquele tempo enfrentava uma luta diária pela sobrevivência. Para comer, plantavam. Para plantar, era preciso pagar pelo uso da terra. E assim enfrentavam questões elementares como a fome, a doença, o medo da morte.

Viviam o resultado de uma opressão secular, submetidos ao poder dos príncipes, incluindo os príncipes da Igreja. Com a Reforma, os camponeses viram a possibilidade para sair do jugo da dominação. Afinal, se questionava o direito divino ao poder. A nova compreensão da leitura bíblica e da igreja os faz perceber – a partir da dura realidade que viviam – que tudo precisa ser mudado, que a Igreja não pode se sustentar a partir do erro. E partem para essa mudança total: substituem o batismo infantil pelo batismo dos crentes, recusam o serviço da espada, rejeitam juramentos, não querem ser governo – porque acreditavam que não é uma tarefa cristã ser governo. Mas, não se negam de ter posições políticas. Querem a separação entre a Igreja e o Estado. Desenvolvem uma ética do trabalho.

Esses camponeses, esse movimento da Reforma, conhecido como anabatista, é o movimento da Reforma que quero olhar. É esse movimento que associo com a cor da minha pele, com a minha condição de mulher negra – sim há uma condição de mulher negra que nenhuma mulher branca, por mais parceira que seja, consegue vivenciar. É para esse movimento que mais da metade dos evangélicos brasileiros, pretos e pobres, devem ser convidados a olhar. E não devem ser convidados a olhar através de uma aula de história. Até podem ter a aula, mas devem olhar para a fé dos camponeses, comprometidos com o fim do domínio de da opressão.

De opressão, nós negros entendemos. E vou repetir, até que eu morra (sábia e bem velhinha, espero) ou que mudem essa verdade inconveniente – que somos nós que vemos nossos filhos e homens sendo mortos pelo braço armado do Estado, pela ausência de políticas públicas, pela falta de oportunidades. Mais da metade dos evangélicos brasileiros são pretos e pobres. No sistema carcerário brasileiro, entre os presos mais de 60% são pretos e pardos. E o IBGE divulgou essa semana que dos 13 milhões de desempregados brasileiros mais de 8 milhões são pretos e pardos. 63,7% dos desempregados são pretos e pardos, revelando mais uma verdade inconveniente: estamos sempre em desvantagem no mercado de trabalho.

Na próxima segunda, 20 de novembro, é o Dia da Consciência Negra, será o dia de lembrarmos o que não podemos esquecer, dia nenhum, de que nos trouxeram para cá, cativos e escravizados – os primeiros de nós chegaram por aqui em 1539 (enquanto o Reforma Protestante fervia na Europa)- e depois de nos aviltar e violar por 350 anos, nos dão a liberdade por decreto, sem eira, sem beira, sem restauração, sem reparação.

Somos lançados nas ruas. Sem casa, sem comida, sem acesso à educação. Isso explica o motivo de olharmos para as favelas, para os valados, para os becos e nos vermos lá. Assim surgiu a primeira favela do Brasil, o Morro da Providência, no Rio. Era o lugar onde os negros libertos podiam ir, e viver. O território livre da bexiga e da peste. Assim se explica a imensa maioria de pretos e pobres, palavras que parecem ser sinônimas por aqui. Assim se explica o por que morremos, assim se explica sermos a maioria no cárcere. Assim se explica a desvantagem no mercado de trabalho. E o que explica sermos a maioria na fé oriunda da Reforma?

Eu sou uma privilegiada, admito. Não fui a primeira de minha família a entrar na Universidade. Minha mãe alcançou esse feito, bem como seus irmãos, nos idos anos 60 e 70. Também nunca fui católica. Sou a terceira geração de uma família de batistas. E, quando escuto a história do meu avô, que saiu da roça carregando um monte de filhos para tentar uma vida melhor na cidade, não penso em meritocracia, ou no quanto ele, minha vó, minha mãe, meus tios, foram esforçados. Eu olho e vejo a fé do meu avô, um homem negro, retinto – neto de escravos – que aprendeu a ler na Bíblia, e essa leitura fez com que achasse lugar e dignidade. Ele escolheu a fé.

Para terminar, na segunda-feira eu estive reunida com pastores de uma comunidade vulnerável no Rio. Eram 10 pastores – todos pretos, todos pobres. Na Cidade de Deus, onde pastoreiam pequenas igrejas e comunidades de fé, as crianças não tiveram metade das aulas previstas no calendário escolar por causa da absurda guerra ao tráfico. Bom dizer que as crianças são, em maioria, crianças pretas. Reuni com eles como coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Com eles estamos organizando um núcleo de Direitos Humanos, uma urgência em um local em que direitos são violados todos os dias. São esses pastores, pretos e pobres, que talvez, não tenham lido artigos sobre a Reforma, que precisam recuperar o sentimento anabatista da inconformidade. São eles que vivem entre pessoas que – como os camponeses alemães de 1500 – lutam diariamente pela sobrevivência, que enfrentam questões elementares como a fome, a politica de saúde ineficiente, a politica de segurança inexistente, a morte de meninos de 16 anos, filhos das mulheres de suas igrejas.

Então, é isso, o meu convite é que para falar da questão racial – urgente e necessária para os evangélicos brasileiros, que os nossos olhos vejam a Reforma radical, que vejam a luta dos anabatistas. E que possamos aprender, nos inspirando, na leitura revolucionária e libertadora do Evangelho.

Palestra proferida durante o III Fórum de Missão Urbana realizado entre os dias 16 a 18 de novembro de 2017 em Camaçari, BA

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