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Cuidando da Criação - O que a Igreja tem a ver com isso?

O cuidado com a criação de Deus é, antes de tudo, ação inerente à tarefa evangelizadora da igreja, uma vez que o plano de salvação de Deus compreende a redenção de todas as coisas

Cuidando da Criação – O que a Igreja tem a ver com isso?

O CUIDADO DA CRIAÇÃO E A MISSÃO DA IGREJA[1]

Quando eu estava à caminho de Cusco, no Peru, participar da conferência O Cuidado da Criação e a Missão da Igreja, meu pai ligou para perguntar o que eu iria fazer lá. Como eu sei que ele não entenderia bem, tentei explicar da maneira mais simples possível. Disse-lhe que era uma conferência com outros pastores e líderes de países da América Latina que tinha a finalidade de discutir problemas relativos à natureza. Fui interrompido no meio da explicação quando ele perguntou: “E o que a igreja tem a ver com isso?”. Nossa conversa continuou, mas, essa pergunta foi inquietante, pois ela predomina na mente de quase todos nós que compomos a Igreja de Jesus.

Um breve relato da Conferência

De 9 a 12 de setembro de 2015 aconteceu a Conferência Regional da América Latina e Caribe, intitulada “O Cuidado da Criação e a Missão da Igreja”. Essa conferência é parte de uma série de eventos da Campanha Global promovida pela Rede Lausanne para o Cuidado da Criação. O evento contou com cerca de oitenta participantes de todos os países da América Latina e Caribe, com exceção de El Salvador e Paraguai. Havia representação de pessoas dos EUA e Inglaterra, integrantes da rede acima citada. Minha participação foi possível por intermédio da Tearfund.

O encontro foi estruturado com plenárias, painéis, oficinas e reuniões em grupos diversos, formados por integrantes do mesmo país, com o propósito de fomentar ações conjuntas e regionais no sentido de montar estratégias eclesiásticas para o cuidado com a criação. Tratamos de assuntos relacionados a temas ambientais, como mudanças climáticas, secas, indústrias extrativistas, desmatamento, dentre outros do gênero, sempre abordados numa perspectiva científica, bíblica e teológica. As fundamentações teóricas das palestras foram reforçadas por testemunhos locais do que se faz nos ambientes diversos. Essa troca de experiências foi rica e revigorante, uma vez que, a despeito de todos os desafios, tantas vezes tão grandes que parecem intransponíveis, percebeu-se que a Igreja de Jesus está ativa e relevante.

Dentre os assuntos tratados nas palestras, destaco os seguintes:

  • Um chamado à ação global para o cuidado com a criação, trazida por Ed Brown, em que destacou o compromisso que o Movimento de Lausanne tem com o tema e as implicações para a América Latina.
  • Uma mudança de paradigma urgente: igreja, missão e criação, trazida por Ruth Padilla, em que destacou a necessidade de entendermos o paradigma da criação de Deus como uma criação integral.
  • Indústrias extrativistas, trazida por Jed Hawkes, em que destacou o impacto ambiental e político que as empresas extrativistas trazem à natureza com consequências sobre os mais pobres.
  • Fundamentos bíblicos para o cuidado com a criação, trazida por D. Bookles, em que fez uma exposição bíblica sobre a criação de Deus e como isso está contido na proposta de redenção divina.
  • Economia e o cuidado com a criação, trazida por Richard Weaver, em que tratou os impactos da economia global na criação de Deus.

Do Brasil, éramos sete representantes. Estimulados pela Conferência, montamos uma estratégia nacional que consta de três ações que reforçam o que já vem sendo feito por instituições com atuação nacional, entendendo que há forças em nossa nação que, se bem articuladas, gerarão grandes resultados. Como se trata de uma estratégia em fase de articulações e melhoramentos, não seria prudente expor as intenções do grupo, mas, saímos animados por se tratar de ações viáveis e fortes.

 O papel da Igreja no cuidado com a criação

O cuidado com a criação de Deus é, antes de tudo, ação inerente à tarefa evangelizadora da igreja, uma vez que o plano de salvação de Deus compreende a redenção de todas as coisas. Para entendermos isso, quero apresentar o velho plano de salvação, numa ótica um pouco mais ampliada, menos antropocêntrica e mais teocêntrica.

Olhando a Bíblia, já no seu primeiro texto (Gêneses 1.1) enxergaremos que a primeira doutrina básica é a da criação. Esse capítulo termina com o Criador numa atitude de contemplação diante da sua obra criada (todas as coisas) e o registro de que “Ele viu que tudo era muito bom” (versículo 31). Ao homem/mulher cabia uma tarefa muito preciosa: a de cuidar de toda a obra criada (Gênesis 2.5), mas, eles falharam e, como resultado do seu pecado, toda a obra criada sofreu as consequências, inclusive a Terra (maldita é a terra por tua causa – 3.17). Não é por outro motivo que Paulo vai dizer que a “criação geme com dores de parto até agora”, e em suas dores, “aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus”. Ela sofre porque “ficou sujeita à vaidade da parte daqueles que a sujeitou”, isto é, do homem e da mulher que pecaram por buscarem a satisfação de seus próprios desejos (Romanos 8.19-22).

Por olhar para o mundo a partir de uma ótica antropocêntrica e, consequentemente, egoísta, limitamos o plano de salvação de Deus aos seres humanos, como se a redenção trazida pela morte de Cristo fosse apenas para pessoas. Não é assim que diz João 3.16, pelo contrário, o Pai enviou seu filho unigênito porque “amou o Kosmos. O termo grego que traduzimos por mundo, significa toda a obra criada.

Cristo nos foi dado para a redenção de todas as coisas, porque, “aprouve a Deus que… havendo por ele feito a paz pelo sangue da cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus” (Colossenses 3.19, 20). A salvação do sujeito é individual, pois Deus nos deu liberdade para isso, mas, não podemos confundir a salvação individual com os efeitos do plano de salvação de Deus. Para o Criador, toda a sua obra criada será um dia redimida a partir do estabelecimento final do seu Reino. Se à igreja cabe a tarefa de cooperar com Deus no estabelecimento do seu Reino, a criação não pode ficar de fora da sua agenda, nem se tornar um assunto optativo. Tem que ser vista como parte fundamental do plano de salvação.

Quando em Romanos Paulo diz que a criação sofre porque “ficou sujeita à vaidade da parte daqueles que a sujeitou”, logo vem à mente todos os disparates que temos cometido com a Natureza em função da vaidade do lucro, do poder e do dinheiro. Absurdos que nos levam a desperdiçar um terço da comida produzida no mundo enquanto quase um bilhão de pessoas vivem com fome, ou então a loucura de concentrarmos metade da riqueza produzida nas mãos de 1% da população, enquanto que 71% dividem 3% de tal riqueza[2]. Isso é uma loucura aos olhos do Criador! A igreja não pode tirar isso de sua agenda sob pena de cometer desvio de sua missão.

O mal-entendido teológico em se achar que cuidar da criação pode ser considerado tarefa secundária, ou até optativa, tem, dentre outras, pelo menos duas causas: 1ª – Herdamos uma cosmovisão que nos conduziu a uma teologia dualista, neoplatônica, talvez até gnóstica em alguns momentos, em que o plano de salvação de Deus foca apenas a alma, quiçá, o corpo, mas, quase nunca a vida em todas as suas dimensões. 2ª – A influência capitalista e mercantilista, em que a criação é vista como elemento a ser explorado. Nesse aspecto, a teologia reformada e a política da Igreja Romana contribuíram, ora em dar amparo ao enriquecimento como sinônimo de bênção, no caso da primeira, ora no uso da religião como fundamento do colonialismo exploratório, no caso da segunda.

Tais influências turvaram o óbvio de tal maneira que deixamos de enxergar que a Missio Dei começa num “jardim com a árvore da vida ao centro” (Gênesis 2.9) e termina da mesma maneira (Apocalipse 22.2). A Conferência de Cusco teve a missão de nos alertar para essas verdades e, diante delas, temos alguns desafios: 1º – Considerarmos que estamos diante de um problema global no que concerne à criação e que a nossa teologia tem que trazer respostas sólidas. 2º – Entendermos a criação de Deus como beneficiária da salvação de Deus. 3º – Mudarmos o paradigma de “coroa da criação” da categoria de dominador para a de cultivador. 4º – Entendermos que questões ambientais estão diretamente associadas a crises sociais. 5º – Criarmos um sistema econômico que ponha a extração de recursos da terra em harmonia com seu ritmo de recriação.

Como disse Moltmann[3], “aquela que hoje chamamos de ‘crise ecológica’ não é simplesmente uma crise do nosso ambiente, mas é uma crise total do nosso sistema de vida e não pode ser resolvida apenas com os instrumentos tecnológicos. Ela pede uma mudança do sistema e uma mudança dos valores e das convicções-guia da nossa sociedade”.

[1] Por José Marcos da Silva – Pastor da Igreja Batista em Coqueiral, no Recife. Presidente do Instituto Solidare.

[2] Fonte: Informe sobre a Riqueza Global 2015, da Credit Suisse.

[3] Palestra proferida por Jürgen Moltmann, no Fórum de Pequim, ocorrido entre os dias 5 e 7 de novembro de 2010. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/44610-por-uma-cultura-da-vida-nos-perigos-do-tempo-presente-artigo-de-juergen-moltmann

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