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A Igreja e os Desafios Regionais - Relatório do 1º Congresso Renova

A Igreja e os Desafios Regionais

Aconteceu em Montes Claros, norte de Minas Gerais, nos dias 02 e 03 de Junho de 2016, o 1º Congresso RENOVA – Rede Evangélica de Promoção Social do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, com o tema: “A Igreja e os Desafios Regionais”.

A programação consistiu de cinco palestras e um mini fórum para debates. O somatório dos inscritos para assistirem às palestras e ao mini fórum perfez um total de 237 pessoas. O evento foi patrocinado pela Tearfund Brasil, Desafios de Minas e instituições parceiras da RENOVA. Foram palestrantes: o pastor Christian Gillis – da Igreja Batista Redenção, em Belo Horizonte; o Secretário Executivo da Missão Emanuel, Fred Silva – de Belo Horizonte; Simone Vieira – da Tearfund Brasil; e o pastor Tarcísio Porto – da 7ª Igreja Presbiteriana, em Montes Claros.

Na abertura do congresso destacamos que a prática teológica e missionária na vida das igrejas evangélicas precisa enxergar os desafios que a realidade social lhe apresenta e, assim, buscar meios para anunciar um evangelho que faça diferença na vida pessoal e também na sociedade, manifestando o Reino de Deus e a Sua justiça.

O pastor Christian em suas palestras abordou o tema: “A missão contextual e transformadora”, por meio da reflexão no texto de Marcos 1.35-39. Fred Silva discorreu sobre: “A missão da igreja a partir do ministério de Jesus”, com base no texto de João 1.14. Simone Vieira trouxe-nos uma reflexão sobre: “A Igreja e a garantia de direitos”, em Provérbios 31.8-9. Por sua vez, o pastor Tarcísio nos levou a refletir sobre: “O desafio da igreja diante dos desafios regionais”, em Mateus 9.35-38.

Uma breve sinopse do que foi dito no congresso:

“O texto Marcos 1.35-39 é missional, no verso 38 Jesus afirma: ‘Foi para isto que eu vim’. Então, a igreja é por natureza missionária porque o Deus a que adoramos está em missão: ‘Meu Pai trabalha até hoje’. O povo de Deus foi constituído para ser missionário. Jesus dá nova vida às pessoas. A igreja que não é missionária é uma aberração, está doente. As pessoas que foram ‘tocadas’ por Jesus, receberam o perdão e também uma nova vida, uma nova história, uma nova oportunidade. A salvação não consiste apenas em algo espiritual, mas também para a vida aqui na terra.

Os elementos importantes para a missiologia contextualizadora são: 1º) A missão da igreja nasce da missão do próprio Deus (desdobramento). Não é a partir de si mesma. Deus está comprometido com uma causa: a Salvação do mundo. Nosso Deus é um Deus que é missionário e age por amor a este mundo, com um coração missionário. Ele ama o mundo e nos convida a cooperar com Ele nesta obra redentora. Quem sintoniza com o coração deste Deus, tem essa missão que nasce dessa comunhão. É da comunhão com Deus que nasce a missão evangelizadora. Portanto, proclamar o evangelho não consiste apenas em verbalizar. 2º) Aquele que está nessa comunhão envolve outras pessoas. É preciso ter discernimento do contexto. É preciso perceber as realidades sociais que envolve as pessoas. Jesus tinha uma percepção clara do contexto onde exercia seu ministério, porque apresentava um evangelho que transformava a vida das pessoas. Não o evangelho da ‘boa morte’, que apenas aponta para o céu, mas o evangelho que liberta e cura pessoas do poder das trevas. Corpo e Alma estão ligados, não são universos separados. Este é o contexto. A igreja foi constituída como uma agência de Deus para servir ao mundo, ela é por natureza missionária. Quando a igreja se envolve com missão, quando ela vai ao encontro do mundo, ela se purifica. O povo de Deus foi constituído para ser missionário. 3º) Precisamos ter clareza na visão da tarefa. O ponto de referência é o Reino de Deus, Jesus de Nazaré. A agenda de Satanás é opressão e a de Jesus é libertação (Marcos 1.14,15). É preciso arrepender, crer e viver o novo evangelho. A vocação da igreja é ser igreja para os outros. Os desafios regionais são percebidos a partir da tensão entre a igreja e o mundo. A eclesiologia não pode amarrar a missão da igreja: levar Deus para o mundo. O povo de Deus foi chamado para viver uma ética social. Os profetas do antigo testamento constituíram um movimento de resistência espiritual, agiam como ‘oficiais de justiça’, traziam denúncia judicial contra o povo. Jesus, em Mateus 5, se vinculou ao movimento dos profetas. Profeta é um sujeito que visa a redenção do povo. Faz críticas ao comportamento presente e, caso não haja conserto, haverá consequência: a morte. Portanto, às boas novas precede a péssima notícia de que o pecado é uma enfermidade mortal.

Diante disso, precisamos entender a missão da igreja a partir do ministério de Jesus, como resposta de vida ao mundo. É a partir da compreensão da Teologia da Encarnação de Jesus que nasce a compaixão. A glória da cruz está na dimensão de ‘ser servo’ e isto reflete a glória do Pai. O evangelho de João 1.14 nos dá conta do que significou para Jesus ‘ser gente’ e viver entre nós. Ele veio ao mundo para viver ‘debaixo do viaduto’. Jesus veio com a missão de restaurar o perfeito e mútuo relacionamento entre Deus, o homem e a natureza.

Por um lado, temos a má notícia de que, com a queda, o relacionamento do homem com Deus, com o próximo e com a natureza foi quebrado. Todavia, em 2º Co 5.17-20, temos a boa notícia de que Deus providenciou a reconciliação. E que esta reconciliação foi confiada a Jesus e à igreja (os crentes). A reconciliação é entre o ser humano e Deus; entre o ser humano e seu semelhante; e entre o ser humano e a natureza. É um estado de total florescimento em cada dimensão da vida humana. O ministério de Jesus foi repleto de graça e verdade. Assim também o ministério da igreja deve ser cheio de graça e verdade. Desta forma a igreja deve se apresentar ao mundo com palavras e ações de reconciliação e restauração. Como Jesus fazia. A igreja deve viver e andar no meio da criação de Deus, que está machucada pelo pecado. A igreja deve ser ‘ekklesia’ (ek, significa para fora, e klesia, que significa chamados). Responder a cada uma das necessidades do ser humano caído e ferido, com amor e compaixão, graça e verdade. A glória de Jesus Cristo está na cruz, em ser servo. Este é o exemplo de Jesus, o que passa disso é maligno.

Portanto, a igreja tem a missão de influenciar as decisões de quem tem poder, combatendo as causas fundamentais e trazendo justiça social e desenvolvimento. Provérbios 31.8-9 exorta o povo de Deus a ‘erguer a voz em favor dos que não podem, defender os desamparados, agir com justiça e defender os direitos dos pobres e necessitados’. A igreja precisa olhar para as pessoas vulneráveis de nossos dias. Deus, no Salmo 12.5, diz que salva e protege a quem por isto anseia. Se Deus faz assim, a igreja também precisa fazer. Em Isaias 10.1-2 Deus diz que está atento à legislação que está sendo imposta. Então, os órgãos públicos, os legisladores, os governantes e a sociedade precisam ver na igreja esta missão sendo cumprida. É preciso fazer uma leitura real do ambiente onde a igreja se encontra, no qual ela deve exercer influência, uma leitura bíblica e uma hermenêutica social. Precisamos voltar ao Evangelho, ouvir Jesus e perceber a forma como ele vê o homem, porque a proposta dele é salvar o homem “todo”, devolvendo-lhe a dignidade do ser humano que Deus criou.

As regiões Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha eram ocupadas originalmente por povos indígenas, que foram explorados, exilados e, muitos, exterminados; assim como aconteceu na história da descoberta das Américas. Existem aos arredores dos 140 municípios mineiros dessas regiões muitas vilas e vilarejos. Há uma grande variação de pessoas, culturas, histórias e valores, como também uma enorme situação de vulnerabilidade social, inclusive nas vazantes e ribeirinhos. Diante dessa realidade e com o coração no texto de Mateus 9.35-38, percebemos que dentre os desafios de todos os povos dessas regiões, está também os nossos irmãos crentes, a igreja de Jesus Cristo.

Acreditamos que Deus é soberano e que Ele trabalha até hoje. Deus está em missão no mundo. Então, precisamos entender o que é a igreja e para quê ela existe. É mister considerar o desafio da igreja diante dos desafios regionais. Precisamos compreender melhor o que é missão e missões; a maneira, a forma, como se aplica a missão de Deus no mundo. Porque a missão é de Deus, mas Ele tem também instrumentos e quer usá-los. Missão, no singular, expressa a atividade de Deus, o que Ele está fazendo e somente Ele pode fazer. Missões, no plural, refere-se às atividades da igreja que está dentro da missão de Deus. O centro e nosso maior exemplo é Jesus Cristo. Precisamos olhar ao nosso redor assim como Jesus olhava para as cidadelas e povoados. Ele via as pessoas que ali se encontravam e seu coração ardia de compaixão por elas – ‘ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor’ (vs. 36). Então, é preciso pedir ao Senhor da terra que envie trabalhadores. É preciso que cada crente entenda sua vocação no campo da seara. O desafio da igreja está na grande comissão, sua tarefa é fazer discípulos de todas as nações. A essência é fazer discípulos como Jesus. Ele foi um excelente instrumento e cumpriu a agenda de Deus. A atuação de Deus é cósmica, a seara do Senhor é todo o universo.

Ser instrumento de Deus é um privilégio. Todavia, a igreja parece não estar muito interessada na agenda de Deus. Será que ela tem dialogado, interagido com o mundo para manifestar graça e misericórdia? Qual tem sido o interesse da igreja? Infelizmente, a palavra interesse tem também o significado de lucro. Então, qual tem sido o interesse da igreja do Senhor no Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha? Quanto às missões, não há ‘vontades de Deus’, mas ‘vontade’, uma vontade: ‘fazer discípulos’. Assim como o Pai enviou Jesus, Ele nos envia. Como vamos? Como Jesus é o que precisamos ser. Ser discípulo que se engaje na missão de Deus para fazer missões. Que entenda, assim como aquele menino que doou seu lanche e, pelo poder de Deus, foi capaz de alimentar uma multidão. Cada crente precisa ser discípulo que faça discípulo, sendo instrumento e vivendo sua vocação como discípulo na seara do Senhor. Cada crente, independente da profissão ou condição social, precisa ser esse instrumento do Senhor, entendendo e vivendo esta vocação.”

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