| | | 55 31 3568-1401

Como quebrar a cadeia econômica da Violência Sexual e de Gênero

Como quebrar a cadeia econômica da Violência Sexual e de Gênero

Quando seu marido adoeceu vários anos atrás, Maribel vendeu sua terra para pagar as despesas médicas. Depois, vendeu seu gado e tudo o mais que possuíam, em busca de uma cura. Mas foi tudo em vão. Seu marido acabou morrendo em sua casa de um cômodo nos arredores de La Paz, na Bolívia.

Sem nenhum dinheiro e desesperada para encontrar trabalho, Maribel e sua filha conseguiram um trabalho de limpeza em Potosí, uma província distante. O trabalho ficava muito longe de sua comunidade, mas o empregador providenciou alojamento e deu a Maribel um empréstimo de US$ 30 para suas despesas de mudança. Depois de trabalhar por apenas uma semana, Maribel percebeu a verdade: com o salário que recebia, ela nunca conseguiria pagar essa dívida. Seu empregador era seu proprietário.

Ele se tornou cada vez mais violento e abusivo, pagando a Maribel apenas o suficiente para que ela comesse e fizesse os pagamentos de seu empréstimo. Quando ficavam zangados, seu chefe e seus gângsteres torturavam Maribel e outras trabalhadoras, queimando-as com cigarros. Quando eles estavam bêbados, muitas vezes atacavam e estupravam as mulheres. Como haviam subornado a polícia local há muito tempo, esses homens não tinham medo da justiça, e as mulheres não tinham para onde ir em busca de segurança.

Maribel estava encurralada.

Infelizmente, a história de Maribel não é uma tragédia estranha e única, mas uma realidade diária para muitas mulheres por todo o mundo. A impotência e o medo incapacitante mantêm pessoas como Maribel em silêncio – e muitas vezes escondidas em plena vista. Hoje, mais de 40 milhões de pessoas por todo o mundo estão presas em servidão por meio de trabalho escravo e casamentos forçados. As pessoas materialmente pobres, especialmente as mulheres, são altamente vulneráveis a esse tipo de exploração, que muitas vezes leva à violência.

O que você pode fazer para evitar a violência sexual e de gênero em sua comunidade? Abaixo estão algumas ideias inspiradas no trabalho da Paz y Esperanza, uma organização de direitos humanos que trabalha lado a lado com governos locais na América Latina.

ENGAJAMENTO DO GOVERNO LOCAL

Para protegê-las da violência, as pessoas mais pobres do mundo precisam de sistemas de justiça pública – polícia, magistrados, tribunais – que funcionem para elas. Se não houver consequências para os empregadores opressivos, de que forma as mulheres como Maribel poderão se beneficiar com os hospitais, escolas, poços, latrinas e bancos de microfinanças que podemos construir? Se não houver nada que proteja as mulheres mais pobres contra a violência e a escravidão, de que forma elas poderão poupar e investir para sair da pobreza? A Paz y Esperanza aborda este problema na raiz, equipando os cidadãos locais, bem como seus sistemas de justiça pública.

ORGANIZAÇÃO DE OFICINAS DE CONSCIENTIZAÇÃO

Em muitas comunidades rurais, o machismo e a violência tornaram-se uma realidade aceita. Para desafiar essas normas, a Paz y Esperanza organiza oficinas de conscientização em igrejas e centros comunitários. O objetivo é ajudar as mulheres a aumentar sua resiliência e melhorar sua renda para se tornarem menos vulneráveis à violência.

Esses workshops incluem discussões sobre tudo, desde autoestima e habilidades de comunicação até abordagens saudáveis para disciplinar os filhos. As mulheres são treinadas para falar publicamente em sua comunidade local, usando um megafone para transmitir essas mensagens sobre a cultura familiar saudável a seus vizinhos. Uma vez que é formado um grupo de 25 mulheres empoderadas, a Paz y Esperanza treina-as e organiza-as para iniciar um projeto de defesa e promoção de direitos ou empreendedorismo.

MAIOR PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES

No Peru, os governos locais realizam anualmente uma “consulta orçamentária participativa”, permitindo que os cidadãos digam o que querem que seja financiado. Na região de Ayacucho, esta consulta tradicionalmente é dominada pelos homens, que propõem planos de infraestrutura e irrigação.

Vários anos atrás, em uma comunidade, a Paz y Esperanza começou a trabalhar com as mulheres para ajudá-las a expressar suas necessidades. As mulheres locais concordaram que suas principais prioridades eram a segurança pessoal, oportunidades de trabalho para as mulheres e o fim da violência contra elas.

A Paz y Esperanza ajudou a registrar o grupo de mulheres, fornecendo-lhes uma estrutura formal para se representarem. As mulheres elegeram várias líderes e apresentaram sua proposta na consulta orçamentária. Elas ouviram palavras de protesto de alguns: “Por que essas mulheres estão aqui? Elas deveriam ficar quietas num canto”. Mas, no final, a proposta bem escrita das mulheres, assinada pela maioria das mulheres da comunidade, recebeu financiamento.

A Paz y Esperanza facilitou este processo em várias províncias. Em muitas ocasiões, a participação das mulheres garantiu o financiamento de oficinas de empreendedorismo e campanhas contra a violência.

A Paz y Esperanza ajuda mulheres empreendedoras a desenvolver e comercializar seus produtos. Foto: Paz y Esperanza
A Paz y Esperanza ajuda mulheres empreendedoras a desenvolver e comercializar seus produtos. Foto: Paz y Esperanza

CRIAÇÃO DE TRABALHO PARA MULHERES VULNERÁVEIS

Juntamente com a promoção da conscientização e mudança em larga escala, a Paz y Esperanza dirige o projeto Mujeres Emprendedoras, na província de Chincheros. Este projeto visa desenvolver habilidades de empreendedorismo em mulheres com educação formal limitada que sofreram violência. Graças aos esforços de defesa e promoção de direitos da Paz y Esperanza, o governo do distrito local agora realiza feiras de alimentos regulares, onde as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho, testando e melhorando seus produtos alimentícios e sobremesas.

“Algumas mulheres que nunca tiveram sucesso nos negócios agora vendem comidas típicas – mondongo, arroz con pollo ou sonhos de quinoa”, diz Kathia Alminagorta, funcionária da Paz y Esperanza em Ayacucho. “Pouco a pouco, as mulheres estão sendo libertadas da dependência econômica que as prendem a parceiros violentos.”

A Paz y Esperanza também ajudou grupos de mulheres a se candidatarem ao financiamento inicial do governo local para iniciar pequenos negócios. Um dos mais bem-sucedidos é um grupo de sete mulheres que iniciaram um negócio de sucos chamado Chica Express, vendendo suco na estrada para os ônibus e carros que passam. A Paz y Esperanza ajuda grupos como esse a elaborar um plano de negócios, apoiando-os até que eles tenham confiança para vender sozinhos.

SIMPLIFICAÇÃO DO ACESSO AO ATENDIMENTO

Devido ao medo, à vergonha e às pressões culturais, em Ayacucho, apenas dois por cento das sobreviventes denunciam a violência cometida contra elas. Mesmo depois de criarem coragem, as mulheres das zonas rurais, em particular, lutam para acessar os serviços de justiça, já que precisam percorrer grandes distâncias para obter ajuda, muitas vezes a pé, de ônibus ou na traseira de caminhões. Como os prestadores desses serviços geralmente estão longe uns dos outros, as mulheres com pouco dinheiro, tempo ou compreensão do processo não conseguem obter proteção.

Em resposta a isso, a Paz y Esperanza ajudou a criar o CASE (Centro de Atención Socioemocional), um centro que opera em parceria com o governo local e ONGs. O CASE fornece espaço para policiais, aos quais as mulheres podem denunciar crimes; promotores, que podem dar uma ordem judicial restritiva; e assistentes sociais, que podem conectar as mulheres a recursos para cuidados contínuos.

PROMOÇÃO DE GRUPOS DE POUPANÇA E CRÉDITO

Em vista da ligação entre a violência e as dificuldades financeiras, a Paz y Esperanza promove grupos de poupança, que reduzem a vulnerabilidade das mulheres à exploração. Nesses grupos financeiros, as participantes poupam e emprestam seu dinheiro umas às outras em um contexto justo e seguro de amizade. Esses grupos são particularmente eficazes em comunidades onde não há serviços de poupança e crédito acessíveis e onde os agiotas cobram juros de até 180%. As participantes também constroem um “capital social” – um profundo senso de conexão e apoio relacional que as protege em épocas difíceis da vida.

O currículo de Restore: Savings (Restaure: Poupança), do Centro Chalmers, foi criado especificamente para que as igrejas promovam grupos de poupança entre pessoas economicamente vulneráveis. Em todo o mundo, as mulheres que participam desses grupos contam que deixam de sentir vergonha, sentem uma maior conexão e mais resiliência.

* O nome foi alterado para proteger a identidade. 


QUESTÕES PARA DISCUSSÃO

  • Que ligação entre a vulnerabilidade econômica e a violência sexual e de gênero há em sua comunidade?
  • Que medidas você e sua igreja/organização podem tomar para quebrar essa cadeia?

Visite www.chalmers.org/resources/from-dependence-to-dignity  para baixar o currículo de Restore: Savings, do The Chalmers Center. Disponível de forma gratuita em inglês, francês e espanhol.

Ilustração: Petra Röhr-Rouendaal, Where there is no artist (segunda edição)

Artigo extraído da Passo a Passo 106, que explora como podemos pôr fim à violência sexual e de gênero e oferecer apoio holístico às sobreviventes. Para acessa-la em nosso Tearfund Aprendizagem e conhecer outros recursos, clique aqui. 

Leave a Reply