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Até que todos sejam livres

Informativo Miqueias: 40 milhões de pessoas são escravizadas ao redor do mundo

Você não deve ficar com medo do proprietário. Ele é que deve ter medo de você. Ande com a sua cabeça erguida”.

Essas palavras de incentivo foram ditas por Kalpana, uma sobrevivente que esteve sujeita à escravidão e que foi resgatada em 2013, ao ajudar autoridades governamentais e representantes da Missão Internacional de Justiça a resgatarem 42 pessoas que estavam sendo exploradas em oficinas de corte de madeira no sul da Índia, no início de julho.

Kalpana é uma líder na Released Bonded Laborers’ Association (RBLA), um grupo formado por sobreviventes que protegem suas comunidades, ajudam pessoas escravizadas e defendem direitos para erradicar o trabalho forçado. Tendo identificado esse caso de escravidão, os membros da RBLA observaram a existência de extrema crueldade e exploração. Uma mulher havia dado à luz em um campo aberto duas semanas antes. A vítima mais idosa era um senhor de 79 anos. As palmas das mãos de todos os trabalhadores – jovens e idosos – estavam cheias de cicatrizes e manchas causadas durante o corte de árvores e a retirada de espinhos.

Naquele dia, as autoridades locais libertaram todas as 42 pessoas, incluindo 16 crianças, o que foi um verdadeiro milagre. Realmente foi um milagre porque, até pouco tempo, muitos negavam que existia escravidão no país e agora as autoridades estão realmente seguindo a lei do país para erradicar o trabalho forçado.

Apesar das questões de escravidão e de tráfico de pessoas estarem recebendo muito mais atenção nos dias de hoje, a triste verdade é que este crime continua crescendo. Esses sobreviventes são apenas alguns entres os 40 milhões de pessoas escravizadas ao redor do mundo na atualidade, sujeitas ao trabalho forçado, à exploração sexual e várias outras coisas. A conscientização, por si só, não protege as pessoas vulneráveis e que ficam à mercê dos poderosos. A escravidão é lucrativa e continuará existindo até que aqueles que lucram – às custas do sofrimento, do corpo e do trabalho dos outros – realmente passem a correr o risco de serem presos, acusados e punidos.

A liberdade está no DNA da igreja, desde a época dos profetas que denunciavam o abuso e a exploração das pessoas pobres até o ministério de Jesus entre os mais humildes. Lucas 4:18 nos dá uma ideia de como era a vida de Jesus e do exemplo que Ele deseja que sigamos: “O espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos…”

O teólogo e bispo anglicano N. T. Wright nos lembra em seu livro Surpreendido pela Esperança de que o trabalho de justiça é realmente essencial para a comunicação do Evangelho:

“Porém, como a igreja pode anunciar que Deus é Deus, que Jesus é o Senhor, que os poderes do mal, a corrupção e a própria morte foram derrotados, e que o novo mundo de Deus está começando? Isso não parece piada? Bem, seria se, de fato, não estivesse acontecendo. Se a igreja estiver… seriamente empenhada na luta pela justiça no mundo, tanto no aspecto global, como no local… e, se, além disso, sua vida interior der todos os sinais de que a Nova Criação está verdadeiramente acontecendo, gerando um novo tipo de comunidade, então, de repente, o anúncio passará a fazer muito sentido”. N. T. Wright, Surpreendido pela Esperança, página 241.

A Igreja teria um poder enorme, se decidisse exercê-lo. Assim como Frederick Douglass pregou no dia 4 de julho, há mais de 160 anos: “Permitam que o povo de Deus exerça seu imenso poder contra a escravidão e o escravismo; e todo sistema criminoso e sanguinário seria espalhado pelos ventos”. Não seria incrível se a igreja cristã da atualidade ficasse conhecida por ter promovido a abolição da escravidão dos dias de hoje, assim como os cristãos lideraram o movimento abolicionista do século 19, nos Estados Unidos e na Europa?

Três anos atrás, algumas igrejas nos Estados Unidos se uniram à Missão Internacional de Justiça e escolheram um domingo de setembro para ser o “Domingo da Liberdade”. Foi uma oportunidade para aprender, orar, doar e agir. Em setembro de 2018, mais de 18 mil congregações, em 50 países, chegaram a participar, envolvendo mais de 3 milhões de pessoas. Em setembro deste ano, igrejas de todo o mundo vão fazer o mesmo. O que um dia foi um simples murmúrio está se tornando um verdadeiro rugido.

A voz profética da Igreja deve ser ouvida repetidamente, até que a escravidão seja completamente erradicada, de uma vez por todas.

Miguel Lau
Oficial Sênior, Parcerias com Igrejas
Missão Internacional de Justiça

(Extraído do boletim de notícias de Miqueias do mês de agosto de 2018)

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