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Andrea Vargas: "Se a igreja focar primeiro em gerar vida, nosso modus operandi vai ser outro"

Andrea Vargas: “Se a igreja focar primeiro em gerar vida, nosso modus operandi vai ser outro”

Entre os dias 26 a 29 de junho foi realizado o Congresso Miqueias Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, na Igreja Batista da Praia do Canto (IBPC), em Vitória (ES). Na noite do dia 27 Andréa Vargas, da Missão Avalanche, falou sobre alguns dos principais desafios a serem enfrentados pela igreja brasileira na busca pela equidade. Andréa é palestrante na área de Sexualidade Humana e Cosmovisão, e desde 2004 tem realizado um trabalho de capacitação para pessoas de todas as regiões do Brasil e de outros países por meio da Missão Avalanche. Leia abaixo a íntegra da palestra de Andrea Vargas no Congresso Miqueias Caminhos da Missão.

Missão em Foco – Por Andréa Vargas

Vitória, 27 de junho de 2017

Eu tenho me tornado uma pessoa inconformada em relação àquilo que a gente poderia abranger numa palavra: sexualidade. De lá pra cá eu tenho me debruçado ao entendimento e à compreensão dos desafios que a gente enfrenta nesse grande leque chamado sexualidade humana. E que eu imaginava que ficaria restrito à homossexualidade. Mas eu descobri que era talvez, quantitativamente, o menor dos desafios. Nós temos muitos outros. A humanidade ainda tem uma inclinação preponderante para a heterossexualidade e nem por isso tem menos desafios, muito pelo contrário. De lá pra cá tem sido essa busca pra entender esse sofrimento humano em torno daquilo que a gente chama de relacionamento, seja com Deus, consigo ou com o próximo. E é nessa perspectiva que eu quero abordar o tema equidade.

Não tem como a gente entrar no assunto equidade se não for pra falar primeiro de justiça. Aí eu fui pesquisar um pouquinho sobre justiça. Inicialmente justiça seria dar a cada um o que é seu (jurisconsulto). Parece meio óbvio, evidentemente distribuir justiça não seria simplesmente dar a cada um o que é seu, pois o simples pensar dessa forma poderia nos levar exatamente à injustiças. Então aquilo que parecia ser óbvio chega uma hora que esbarra no seu limite de competência. Resultado: se a gente parar pra pensar, se merecer aquilo que lhe é devido, aquele que tem mais vai merecer mais e aquele que tem menos vai merecer menos. Então você para e pensa: “Ué, e a justiça, onde fica?”. A noção de justiça deve estar pautada por uma síntese de valores sociais capazes de orientar o quinhão que deve ser dado à cada um e que é de direito.

Aí a gente vai precisar começar a fazer alguns ajustes. E qual o nome desse ajuste? Exatamente equidade.

E pra falar de equidade a gente vai precisar fazer uma viagem: Ilha de Lesbos. É interessante fazer essa viagem porque no livre Ética …., Aristóteles comparou a equidade à Régua de Lesbos, que é feita de chumbo com metal, só que de uma forma flexível pra que se molde a qualquer superfície. Daí Aristóteles chega à conclusão de que essa é uma boa ilustração pra falar de equidade. Porque com uma régua convencional se mede o que é plano e reto, mas nem tudo na vida é plano e reto. Existem rochas que têm a sua curvatura. É interessante porque a ilustração parece ser perfeita pra gente falar desse assunto porque é uma correção da lei. Aí a gente começa a falar um pouquinho de equidade. Uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade. Então nós temos uma lei universal que em um momento chega ao seu limite e competência. Daí ela não consegue mais fazer os ajustes necessários. Aí seria importante fazer uma contextualização, uma adequação, pra que se faça realmente uma medida justa. Pra que se tenha uma atitude justa.

Duas palavras começam a chamar atenção:

  • Equilíbrio
  • Proporcionalidade

Aí começa o desafio porque parece que pra gente atingir esse equilíbrio e proporcionalidade, pra que se haja justiça de fato, considerando os diferentes aspectos e as diferentes demandas que a gente encontra na sociedade, a gente vai precisar repensar exatamente o modus operandi. Aí a coisa vai começar a ficar difícil porque vai além, porque vamos ter que pensar mais. Então agora eu quero propor que tudo isso que a gente viu sobre justiça e equidade, sobre equilíbrio e proporcionalidade, sobre esse repensar esse modus operandi, a gente agora comece a pensar o tema do Congresso: “Caminhos da missão, a igreja e o seu tempo”. Aí a tarefa é falar um pouquinho sobre a realidade e os desafios quando há desigualdade.

Agora quero abordar algumas coisas sobre esse território maravilhoso chamado Brasil. Na contagem de ontem do IBGE: 207,6 milhões de brasileiros. A maioria é a minoria negra. Começa aí a gente esbarrar em algumas questões. Então vamos trabalhar em cima desse número pra gente ter uma ideia. Mais de 50% são negros. Isso é importante, mas não vamos falar só disso porque hoje quero abordar três grupos. O primeiro é a mulher. Eu quero falar um pouco sobre ser mulher aqui nesse país. Pelos números oficiais nós somos o maior grupo. Nós sustentamos quase 40% dos lares. Nesse cenário de crise nós ficamos menos desempregadas. Entretanto, por que não ficamos desempregadas? Porque curiosamente nós ganhamos menos, inclusive ganhamos menos porque ocupamos os cargos mais baixos porque a gente não gerencia e não chefia praticamente nada. Mas, nós atuamos exatamente nos setores onde se remunera menos. Curiosamente nós também nos candidatamos menos, com isso também somos menos eleitas, com isso também nós participamos menos na formação e na elaboração de políticas públicas, que vão inclusive falar sobre nós. Em termos de horas nós trabalhamos mais. O nome disso é DESAFIO.

Papo careta esse de falar de mulher, papo antigo. E parece que é retrógrado, que a gente não aguenta mais. Mas ainda parece que tem que ser falado! Porque fala-se, discute-se, e na prática o que a gente vê de avanço?

Agora vamos falar sobre a mulher negra. Aí Deus começou a tratar comigo. Porque foi conversando com algumas pessoas que eu cheguei a algumas conclusões sobre ser mulher negra nesse país. A mulher negra hoje no Brasil trabalha mais que todos os outros trabalhadores deste país. E ela ganha menos que todos os outros também. A mulher negra estuda menos que a mulher branca. Ela fica mais desempregada do que a branca e é a pessoa que mais morre por agressão física, aliás, todo tipo de agressão. Ela é o maior alvo de violência de todos os tipos e também é a mais assediada. Eu tive o privilégio de ter sido confrontada por Deus a respeito desta questão e Deus me convenceu do meu pecado e é o que eu quero tornar público: como é alienante ser branco e heterossexual neste país! No dia que eu me dei conta disso eu resolvi fazer no mínimo o que eu tinha à disposição, que era pelo menos emprestar uma boca para falar isso onde não me chamaram para falar isso. Deus me deu o privilégio de ter acesso a várias comunidades, ministérios, projetos. Deus deu uma porta aberta. E tenho ido há mais de uma década. Recentemente eu resolvi fazer este teste em uma conferência com mil mulheres em BH em uma igreja abastada, próspera. Eu resolvi fazer essa pergunta para aquelas mulheres todas: “Cadê as mulheres negras da igreja?”. Das quase mil, nove se manifestaram. Eu perguntei: “Isso é o reflexo da sociedade?”. Eu perguntei pra essas nove que se identificaram como negras: “A sua solidão é a mesma da mulher branca?”. As jovens não entenderam a minha pergunta. As mais velhas entenderam e pela primeira vez talvez em décadas de evangelho e sendo membros de igreja tiveram a chance de pela primeira vez dizer “Não, é diferente, nós somos muito mais solitárias”. Eu nunca vi ninguém pregar sobre isso em igreja alguma. Eu nunca vi ninguém dar a oportunidade pra que se fale sobre esse assunto.

O terceiro grupo é o dos gays. E agora a gente esbarra num assunto, então é com temor, tremor e respeito que eu tenho pela comunidade gay que eu quero abordar esse assunto. Porque também tenho temor, tremor, respeito e amor pela igreja do Senhor Jesus Cristo pela qual Graças a Deus eu faço parte. Mas nós vamos falar um pouquinho sobre essa comunidade. Temos quantos gays no Brasil? No mundo? Não há pesquisas sérias sobre o assunto. O que tem é muita falação, muita especulação, pra que se aprove algum número, pra que se faça pressão política “porque homossexual antes de mais nada é um tremendo de um mercado que gera bilhões e bilhões mundo afora em todos os setores. Não é à toa que as paradas de orgulho gay são financiadas por grandes empresas. Não temos pesquisas sérias sobre esse grupo de seres humanos.

Entre 2014 e 2015 o casamento gay cresceu mais do que os casamentos heterossexuais. Mas isso representa 0,5% dos mais de 1 milhão de casamentos. Então paremos pra pensar que a grande maioria ainda é de união heterossexual. Que tipo de união heterossexual está surgindo? Aliás, os gays são filhos de quem?

Peguei três grupos, mas a gente tem muitos outros. Mas poderíamos falar sobre pobres, crianças, adolescentes, jovens, idosos, heterossexuais – por que o que a gente faz com esse povo todo que está adoecido – indígenas, travestis, refugiados, sem-religião, dos quais 600 mil são ateus, fora o pessoal com transtorno mental, alvo de inúmeras violências sexuais. Se uma criança que grita a gente não sabe conduzir para um fluxo de ajuda por causa de violência sexual, imagine uma criança que não fala, que não vê… E um outro grupo que também é um desafio: os suicidas.

Então eu queria que a gente pensasse essa questão da mulher, trazendo o desafio para a igreja. Me parece que nós vivemos hoje, mulheres cristãs, um pêndulo. Ora controladora, ora passiva. Dando a sensação de que ela tem voz, de que ela tem vez, de que ela participa. Mas ela continua no mesmo movimento. A gente poderia discorrer nisso aqui com bastante profundidade. Me parece que isso vez de uma crise que eu quero pontuar aqui: eu acredito que nesse país vivemos uma crise enorme em relação ao que a gente chama de masculinidade e feminilidade. Esquecemos que muito do que há de masculino não é o verdadeiro masculino que um dia Deus construiu e liberou para o ser humano, mas um falso masculino. Assim como muito do que vemos é um falso feminino, e não um verdadeiro feminino. Adolescentes hoje se você perguntar o que é o masculino e o feminino não vão saber dizer, porque não tem quem explique! Porque ainda transmitimos os velhos modelos de sempre: o menino com a bola, a menina com a boneca. O menino de azul, a menina de rosa. E nós não aprofundamos a discussão, inclusive à luz das Escrituras. Continuamos com esse discurso fadado ao fracasso, em dias de pós-modernidade, de liquidez. Isso não cola mais. Estamos lidando com uma geração de adolescentes bissexual, andrógena, que não tem compromisso nenhum com limites. Então temos inúmeros desafios para aprofundar essa discussão.

Assim como, quando paramos para pensar sobre as mulheres negras, dentro do circuito cristão, desse ambiente todo, o que a gente fala? Elas estão tão quietas. Não é porque não falam que não têm o que dizer. E aí a gente esbarra num dos maiores problemas que a gente enfrenta hoje: a solidão. Quem mais se casa dentro de igreja evangélica do Brasil? O modelo continua sendo o mesmo de sempre.

E por fim, chegamos ao grupo de gays. Que a gente continua esquizofrenicamente trazendo esse tratamento, essa cura, essa condução do inferno, porque está no inferno ou vai para ele. Ou então no outro extremo: um pote de ouro pós-saída de armário. O que estou querendo dizer? Que a gente ainda se esbarra nos velhos paradigmas de sempre. Me parece que a gente precisa de um novo modus operandi sim, que traga equilíbrio e proporcionalidade sim. Porque se não, a gente não vai conseguir abarcar esses desafios dentro da missão da igreja.

2 Coríntios 5:18-20 à Aí a gente esbarra nos nossos desafios, e o desafio é grande. O primeiro deles eu queria pontuar. Ainda a vigência do legalismo. Aí a gente sai desse extremo legalista e corre o risco de ir para o outro extremo à graça barata! E a graça barata repele a ideia de santidade. Então me parece que precisamos fazer agora um ajuste neste evangelho que está sendo pregado. Hoje somos em torno de 43 milhões de evangélicos no Brasil. A pergunta é: qual é o evangelho que está sendo pregado? Porque me parece que é um evangelho incompleto. Começa bem e ponto final.

A Ceia não é só o sangue derramado. Nós pregamos a possiblidade de reconciliação do ser humano com Deus através do derramamento de sangue do Senhor Jesus Cristo? Sim. A minha pergunta é: nascemos de novo num corpo velho, com memória, com registros, com maus hábitos, com fissuras, com paixões, com concupiscência. Agora precisamos do segundo elemento da Ceia que é o corpo partido, o pão, que é dado pra que se misture em nós e se torne um só em nós, que é exatamente a Palavra de Deus! Aí a gente esbarra na nossa incompetência.

Então eu acredito que a gente precisaria de algumas propostas: pra começar, acabar com essa história de “vamos melhorar o indivíduo”. Melhorar o que? Ele tem que ser enterrado! E agora nasce alguém novo que precisa render-se! E a gente precisa, eu acredito, fazer uma outra revolução: parar de lastrear o indivíduo pelo seu comportamento e começar a lastreá-lo pela sua filiação. Nós não falamos de identidade, nós falamos de comportamento. Nós falamos de estética evangélica, nós falamos de performance evangélica, nós falamos de jargão evangélico. Mas não falamos de Evangelho!

E o que pode-se esperar de um povo que ouve metade de um evangelho? É metade de um cristão? Eu diria que um cristão carnal! E não vai haver mudança enquanto a gente não fizer esse ajuste. Então eu acredito que a gente precisaria começar e focar a partir do espiritual e desfocar um pouco do sensorial. Porque continuamos hiper focados naquilo que é sensorial: ou seja, sinto, logo isso me define. Isso não me define baseado no que eu sinto. Resumidamente: se a igreja focar primeiro em gerar vida, ao invés de começar a trazer mais lucro, resultado, porcentagem de sucesso. Uma alma vale mais que o mundo inteiro, o resto é vaidade, é do maligno.

Se a gente começar a manter o foco em gerar vida, eu acredito que o modus operandi vai ser outro. Enquanto o foco for na performance continuaremos sendo injustos.

Lucas 21:1-4; isso é a justiça perfeita! Temos que ter esse mesmo olhar, olhar o processo de cada pessoa. Parábola da ovelha: isso é um coração repleto de equidade! Me parece que nós não fazemos questão da centésima ovelha e eu acho que a gente precisava consertar isso como igreja e como nação porque esta centésima estava presente também na célebre frase: “Está Consumado!”

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