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A Igreja, a Covid-19 e a Missão Integral

A Igreja, a Covid-19 e a Missão Integral

A Covid-19, que surgiu em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, e foi declarada pandemia global em 11 de março de 2020, não é apenas uma questão de saúde — ela também mostrou que existem diferentes camadas de desigualdade socioeconômica em todo o mundo. No Reino Unido, as comunidades negras, asiáticas e de etnias minoritárias foram desproporcionalmente afetadas pelo vírus. Nos EUA, as pessoas negras também foram mais afetadas, por muitas razões, incluindo fatores sociais e econômicos que já existiam antes da pandemia e que aumentaram o risco, tais como viver em espaços aglomerados, trabalhar em funções essenciais, ter acesso inconsistente aos serviços de saúde, passar por muito estresse e ter baixa imunidade.

Muitas vezes, a linguagem e as abordagens utilizadas para mitigar a Covid-19 parecem ser mais favoráveis às pessoas e às comunidades mais privilegiadas e que contam com bons recursos do que para as comunidades que vivem na pobreza. Quando as autoridades falam sobre permanecer em lockdown, isolamento ou distanciamento social, isso não necessariamente inclui todas as pessoas. As comunidades e os grupos desfavorecidos não podem se dar ao luxo de entrar em lockdown sem comprometer suas vidas e meios de subsistência. Permanecer em lockdown prejudica as pessoas que vivem em situação de pobreza. Por exemplo, quando as escolas fecharam, crianças de comunidades pobres foram deixadas para trás por não terem condições de assistir às aulas pela internet. Isso prejudicará muito seus resultados futuros. As pessoas que vivem em comunidades pobres não podem se dar ao luxo de permanecer em lockdown porque ganham apenas por cada dia de trabalho. Enquanto as autoridades e muitos outros tratam a Covid-19 como uma crise sanitária, as pessoas que vivem na pobreza a enfrentam como um desastre econômico. Recomendações simples de saúde, como lavar as mãos e manter o distanciamento social, são problemáticas para as pessoas que vivem em comunidades pobres. Para muitos, o acesso à água é um luxo. Para as pessoas que vivem na pobreza, cada dia é uma crise e a Covid-19 simplesmente acrescentou mais uma camada à crise de muitas camadas que enfrentam.

Quando a história da Covid-19 for registrada e contada, o que os comentaristas dirão sobre como as igrejas responderam? O coronavírus trouxe à tona uma crise de propósito para as igrejas em meio ao sofrimento humano. Nós, a Igreja, temos três opções: primeiro, sermos seguidores na implementação de soluções tangíveis para a pandemia que afeta a todos na comunidade onde as igrejas estão presentes; segundo, distanciar-nos em um ato de covardia, usando as Escrituras para justificar-nos e, finalmente, deixarmos que as autoridades definam como enfrentar o desafio ou opor-nos com desdém às evidências empíricas disponíveis sobre o perigo e a carnificina que o vírus está causando em nome da FÉ e da relevância cristã e, posteriormente, nos engajarmos de maneira descuidada.

Na era pós-Covid-19, as igrejas terão o desafio de reafirmar seu propósito de ser uma comunidade de cura em um mundo dominado pela perda e pelo sofrimento humano. Precisaremos enfrentar três coisas: primeiro, fazer uma apreciação crítica do que as igrejas têm feito durante a pandemia de Covid-19; segundo, voltar a avaliar o papel das igrejas no âmbito comunitário de uma nova maneira e, por último, considerar a necessidade de acrescentar um novo conteúdo ao que as igrejas têm feito. Isso requer uma introspecção profunda.

O que a Covid-19 tem revelado? A superficialidade da teologia das igrejas, a falta de uma teologia contextualizada, bem como de um ensino abrangente para capacitar os santos e de um discipulado intencional. Parece que as igrejas precisam superar suas limitações relacionadas à Covid-19 para que suas respostas sejam eficazes. As igrejas também precisam repensar seu papel durante a pandemia de Covid-19, desenvolvendo uma nova forma de abrangência e profundidade em relação às suas respostas às questões emergentes. Durante a Covid-19, algumas das soluções que as igrejas encontraram não beneficiaram a todos. Respostas como a realização de cultos e encontros pela internet têm sido elitistas por natureza, excluindo aqueles que vivem em comunidades pobres. A maioria dos cristãos que vivem em comunidades pobres não tem acesso à internet de banda larga, eletricidade, smartphones, computadores portáteis, tablets etc. Portanto, isso nos leva a perguntar: A igreja virtual é a solução para os desafios trazidos pelo coronavírus? Por que não investir um pouco mais em pequenos grupos e na realização de cultos e encontros nos lares?

Precisamos nos perguntar: O que Deus está dizendo às igrejas durante a pandemia de Covid-19? As igrejas precisam encontrar uma nova maneira de refletir sobre o Deus amoroso que serve, bem como sobre o sofrimento humano. As igrejas também precisam reafirmar que a releitura da Bíblia nessa época de Covid-19 servirá como orientação significativa para a reflexão sobre a fidelidade de Deus durante períodos de grande sofrimento. As igrejas terão de voltar a considerar seu papel no âmbito comunitário, em um contexto de rápidas mudanças. As igrejas terão de se perguntar: O que tem funcionado nas respostas atuais à Covid-19? Ao respondermos sinceramente a essas duas perguntas, seremos ajudados a compreender as realidades e limitações que têm afetado o ministério das igrejas durante essa crise.

Com o avanço do coronavírus, as igrejas precisam de uma liderança forte, corajosa e sábia a fim de responder aos desafios emergentes. Devemos liderar nestes tempos turbulentos.

Martin Kapenda
Coordenador Nacional – Miqueias Zâmbia

(Extraído da newsletter mensal de Miqueias Global do mês de julho de 2020) 

Leia o artigo completo de Martin Kapenda clicando aqui (em inglês).

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