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3º Fórum de Missão Urbana destacou desafios urbanos nos 500 anos da Reforma

3º Fórum de Missão Urbana destacou desafios urbanos nos 500 anos da Reforma

500 anos da Reforma e os Desafios Urbanos: foi esta a temática escolhida para a terceira edição do Fórum de Missão Urbana (FMU) realizado na 2ª Igreja Batista de Camaçari, Bahia, entre os dias 16 e 18 de novembro. Aproximadamente 60 pessoas participaram do evento que tinha como principais objetivos: refletir, à luz da Reforma Protestante, acerca dos principais desafios enfrentados pela igreja brasileira no contexto urbano e propiciar a troca de experiências por meio do trabalho em rede.

Participaram como expositores no 3º FMU o pastor da Igreja Batista em Coqueiral e presidente do Instituto Solidare, José Marcos Silva; o pastor da Igreja Manaim e doutor em Ciências Sociais, Ricardo Bitun; o pastor presbiteriano e professor da Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina, Jorge Henrique Barro; o doutor em Sociologia Ivo Lebauspin; a doutora em Ciências da Religião e professora da Faculdade Batista Brasileira, Marli Vandermuren; o assessor parlamentar e pastor da Igreja Presbiteriana Aliança, Afa Neto; a teóloga e vice-presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana, Lucy Luz e o bacharel em Direito e ativista dos direitos dos povos e comunidades tradicionais e da Iniciativa Vamos de Preto, Tácito Vivas.

Além das exposições bíblicas, palestras, apresentação de estudos de caso e análise de conjuntura, a programação do FMU contou ainda com grupos de interesses que enfocaram temáticas urbanas como: arte e cultura, violência de gênero, sustentabilidade, prevenção às drogas na escola, refugiados e modelo integral de liderança urbana.

Ecclesia reformata semper reformanda

Ao falar sobre o legado da Reforma e as transformações sociais o pastor Ricardo Bitun enfatizou que a Reforma Protestante não se conteve em questionar pontos doutrinários, mas abordou uma crítica à sociedade como um todo. “Religião por religião não liberta e não transforma nada. É simplesmente questão de espaço, relações de poder e relações de mercado”, criticou. Ainda segundo Bitun, seria essa a razão de o crescimento exponencial do número de evangélicos no Brasil não alterar de forma consistente a economia, a política e a sociedade brasileira.

Temos comemorado um evento que aconteceu lá atrás ou temos sido uma igreja que tem se reformado? É preciso coragem para a igreja se auto avaliar. A Reforma de voz profética resgata a ideia de gritar contra tudo aquilo que se opõe aos valores do Reino e a sua justiça. Uma igreja que se acomoda perde a voz profética. Por isso Deus levanta os seus profetas dos lugares mais improváveis possíveis. É gente que está à margem, que ainda não se corrompeu, não se amoldou”.

“Não temos sido governados pelo povo”

A análise da conjuntura urbana ficou à cargo do doutor em sociologia, Ivo Lesbaupin, que iniciou sua fala denunciando o Estado de Exceção vivido hoje no Brasil.

Não estamos numa democracia. Nossa Constituição não é mais a de 1988. Não temos sido governados pelo povo. Nada do que foi mudado em relação às leis foi mudado com a discussão da população. Essas leis, do nosso ponto de vista, não valem nada porque foram aprovadas por um governo corrupto usando da corrupção para comprar os deputados”, salientou.

Lesbaupin apresentou um breve panorama da política e da economia brasileira desde o último mandato de Dilma Rousseff até o atual governo de Michel Temer. Ao falar sobre o ajuste fiscal adotado por Temer e das reformas que têm sido aprovadas sem nenhum apoio popular, o sociólogo denunciou o maior desmonte do Estado brasileiro desde a Ditadura Militar. “Se compararmos a Ditadura Militar com a situação que vivemos hoje, os militares tinham um projeto de país. Este governo não tem nenhuma intenção de ter um Estado grande. Ele quer entregar o país para os estrangeiros. E isso faz parte da perspectiva neoliberal”, explicou.

Ivo denunciou ainda a incapacidade de todos os governantes eleitos após a Ditadura Militar brasileira de alterarem uma política econômica que, desde então, tem sido voltada para atender o pagamento da Dívida Pública. “Os juros dessa dívida vão para 1% mais rico da população. Se paga mais ou menos R$120 milhões para saúde e R$400 bilhões de juros da dívida pública. Se fizermos uma auditoria no Brasil da Dívida Pública descobriremos que 50% dessa dívida é falsa. Porque ela foi feita durante a Ditadura Militar”, criticou.

O lugar do pobre na Reforma Protestante

Ao fazer a exposição bíblica tendo como pano de fundo a Reforma e a cidade, o pastor presbiteriano Jorge Henrique Barro trouxe uma compilação de trechos das Institutas de Calvino acerca da responsabilidade da igreja com os pobres. Em toda a sua fala Barro enfatizou o peso dado pelo reformador ao compromisso daqueles que integram a comunidade cristã com o cuidado com os pobres e vulneráveis e concluiu desafiando os presentes a refletirem sobre o papel da igreja contemporânea no serviço aos necessitados.

O mundo se tornará cada vez mais pobre. O pobre tem que fazer parte da nossa caminhada. Imagine se as nossas igrejas todas devotarem os recursos que elas possuem para ministrarem para os pobres. Qual o lugar do pobre na vida de cada um de nós?”, questionou.

Justiça e Reconciliação

“Não pode haver reconciliação se não houver justiça”, com estas palavras o teólogo e militante do Movimento Negro Evangélico Marco Davi de Oliveira iniciou sua exposição. No estudo de caso em que apresentou brevemente estatísticas acerca da violência contra jovens negros no Brasil, Marco Davi enfatizou o papel da igreja na luta contra essa injustiça.

Ao falar sobre a importância da reconciliação na busca pela justiça, Marco Davi ressaltou as faces mais sombrias do racismo no Brasil e a necessidade de maior empatia por parte da população branca em relação à dor carregada pela população negra face ao racismo, que, embora silencioso, é perpetuado cotidianamente.

Nós negros temos uma dificuldade muito grande de nos vermos como imagem e semelhança de Deus e o branco no Brasil precisa entender que ele tem privilégios psicológicos e sociais simplesmente por ser branco”, pontuou.

O protagonismo feminino na Reforma Protestante

A vice-presidente da Fraternidade Teológica Sul-Americana Lucy Luz citou o protagonismo feminino na Reforma Protestante, destacando sobretudo o papel de Catarina Von Bora. Lucy enfatizou que o Sacerdócio Geral de todos os crentes, um dos principais pontos defendidos pelos reformadores, libertou homens e mulheres de sacrifícios para alcançarem a Salvação de forma que no Reino todos e todas podem se envolver em questões teológicas e políticas, buscando respostas para as questões do seu tempo.

Infelizmente, no entanto, a equidade ainda não é uma realidade para as mulheres dentro da igreja, já que o ministério pastoral continua sendo um tabu na maioria das denominações. “Não é sacerdócio geral de todos os crentes? Por que não de todos e todas?”, indagou a teóloga.

Lucy encerrou sua participação alertando os presentes sobre a violência sistemática que acomete mulheres de todas as idades e classes sociais diariamente no Brasil e no mundo, inclusive dentro das igrejas.

500 mulheres são agredidas por hora simplesmente pelo fato de serem mulheres. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Mulheres quando denunciam já sofreram aproximadamente 7 agressões anteriores. Pastores que estão aqui, por favor, preguem sobre isso porque um desses homens agressores pode ser membro da sua igreja”, concluiu.

Sobre o Fórum de Missão Urbana 

A realização do FMU é fruto de uma parceria entre Tearfund, Betel Brasileiro, Instituto Solidare, Associação dos Líderes Evangélicos de Felipe Camarão (Alef), Ação Evangélica (Acev), Missão Juvep, Faculdade Teológica Sul Americana, Missão Aliança, Renas Bahia, CADI e Aliança Evangélica Brasileira.

A primeira edição do FMU foi realizada em novembro de 2015 em João Pessoa. Quase 100 pessoas participaram do evento cujo tema foi “Instrumentos de Deus na Cidade”. Já a segunda edição do FMU aconteceu em novembro de 2016 em Recife e destacou os principais desafios de ser Igreja em Tempos de Violência.

Veja aqui as fotos e os vídeos do 3º FMU.

Para acessar o site da Rede de Missão Urbana, clique aqui.

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